RÁDIO MOÇAMBIQUE

RÁDIO MOÇAMBIQUE
CLICA NA IMAGEM. NOTÍCIAS ACTUAIS DO PAÍS
Mostrar mensagens com a etiqueta Pemba. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pemba. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Pemba: Arranca hoje festival "Tambo Tambulani 2010"

Arranca hoje, 12, na cidade de Pemba, em Cabo Delgado, o Festival Tambo 2010, pela quinta vez consecutiva organizado pela Associação Cultural, Tambu Tambulani Tambu, sedeada no bairro de Nanhimbe, que tem o condão de trazer àquela região, diversas sensibilidades artistico-culturais internacionais.


Nesta segunda-feira, está prevista a entrada em cena de dois escultores zimbabweanos, bem como uma pintora e escultora das Ilhas Seychelles, para além do arranque do “Workshop” de artes plásticas com a participação do multiartista queniano, Tony Mboyo, o nigeriano Kola Akintola, a brasileira Ângela, Nangashinu N´taluma, que de Portugal traz na sua “bagagem”a arte Maconde, Mieke Oldenburg, escultora que vem de Maputo e quatro artistas pembenses, também calejados na escultura.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Pemba: O futuro alimentado pelo "Jhojhopué"



Estas crianças, cujas imagens foram registadas na Praia da Maringanha, a escassos quilometros da cidade de Pemba, para além de não estudarem, aprendem muito cedo a valerem-se a si próprias para as suas mais elementares necessidades: alimentação e vestuário.
Frequentam as praias e outros locais de grande concentração de pessoas, onde passam o tempo a pedir esmolas, algumas a realizar roubos de pequena monta, e com o resultado das suas "investidas" adquirem qualquer coisa, normalmente pão e algum "frito" e, se puderem, uma ou outra quinquilharia.
O seu contacto diário com artigos de consumo fúteis e para os quais não têm como adquiri-los, leva-as a enveredar para práticas ilícitas ou a sujeitarem-se aos jovens mais velhos de quem recebem instrução para a prática de furtos de telemóveis, brincos, carteiras, acessórios de automóveis como espelhos retrovisores, piscas, etc. Sabem que por serem menores nunca poderão responder junto das autoridades pelas suas falcatruas.
A mais emblemática praia da cidade de Pemba, Wimbe, regista aos sábados e domingos ou feriados, impressionantes enchentes. Só que a grande maioria são estas crianças que mais não fazem do que deabular pela orla da praia, a incomodar aqueles que para lá se deslocam para o merecido descanço e, o que é pior, para se apoderarem dos bens dos incautos.
Os pais dessas crianças onde estão? "Por aí" é a resposta mais que provável. Também eles, os pais, quando petizes, levavam o mesmo tipo de vida. É natural que o hábito se transmita de geração para geração.

A apanha do "Jhojhopué" em Pemba: bom para a Babalaza


"Jhojhopué" é um molusco que se encontra em pequenas conchas rugosas, de cor acastanada. Comestível, é apanhado habitualmente por raparigas e até mulheres adultas em várias praias do norte do país, sobretudo nas marés baixas.
O "Jhojhopué", como é chamado pelas populações de Pemba, serve de alimento para muitas famílias com baixos rendimentos, impedidas por isso de adquirir o peixe vendido a preços proibitivos.
O Molusco é retirado da sua concha, cozinhado a agua e sal. O caril (misturado com manga da época (verde) ou seca) é normalmente acompanhado com mandioca seca (makaka) cozida. O piri-piri "filho da ... é recomendável para os efeitos desejados.
De acordo com o meu amigo Shabani Ali, esta iguaria é um remédio santo para a "Babalaza", ou seja, para atenuar os efeitos da ressaca depois de uma noitada com cerveja a rodos ou com Muchekele (sumo de cajú fermentado).
As imagens foram registadas na Praia da Maringanha, na Baía de Pemba, Província de Cabo Delgado.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pemba: impressões após nove anos de ausência


Mar e Sol e Múmbula, são dois locais aprazíveis para retemperar as forças, seja conversando com amigos, a ler, a tomar umas “2M” bem geladas, seja para “lavar” a vista apreciando belissímas esculturas humanas que desfilam numa passarela de areia fina e branca da praia e... mergulhar nas aguas de um verde-azulado claro do oceano índico.
O Mar e Sol encontra-se no Wimbe. É tão ou mais velhinho do que eu. Nos anos passados não passava de um pequeno bar onde mais se bebia do que degustar uma boa iguaria. Passou por muitas mãos. Hoje é explorado e bem pelo conhecido casal Renato Chambarlain e Eugénia Gaspar. Que o redimensionou aproveitando os espaços que o circundam e acrescentando-lhe um ou dois parrôs. E uma vedação que não “ofende” a praia.
Como sempre o Mar e Sol é ponto incontornável de encontro, da cavaqueira e das “novidades” da terra, onde tive a oportunidade de “tachar” uns bons pratos de peixe pedra e lula grelhada e rever velhas amizades que há muito não via.
Lá se juntam aos domingos para além do casal Renato e Eugénia e os seus filhos, o João Mário e o Nanato, como também o Maíto e a Olga, o Nuro Americano e o Marabuto e o Abulatifo, os incorrigíveis Chico Rezende e Jorge “Zimbabwé” Carapito e o Faruk ... e os rebentos de velhos amigos já desaparecidos feitos candidatos a nossos sucessores (no copo e na ramboiada) e ... tanta malta de que se esqueceu os nomes porque durante anos se espalhou por aí ... vida a quantas obrigas...
O Mumbula: é um quiosque que funciona há menos de um mês. Vizinho do velho/renovado Hospital Provincial e da Pensão Transmontano (hoje loja das TDM). Foi construído nos espaços do Jardim Dona Amélia. Defronte da Igreja São Paulo. A ideia da sua edificação no local foi do Maíto (Mário Gaspar) e da Olga sua esposa. Com a preciosa ajuda do Issa Tarmamade na batalha de ultrapassar as dificuldades impostas por aqueles que “não fazem e nem deixam fazer”.
Com o Mumbula o jardim Dona Amélia ganhou vida e cor após anos a fio ao abandono e local de pastagem da cabritada. Nas cadeiras e mesas de plástico espalhadas entre as árvores pode-se bebericar um saboroso refrigerante, tomar uma bica, enquanto a criançada, sempre alegre e barulhenta, por ali baloiça e saltita. Por uma questão de respeito para com os crentes que frequentam a Igreja São Paulo não estão disponíveis bebidas alcoolicas, sobretudo cerveja, embora um bom apreciador de café tenha à sua disposição uma boa bagaceira ou um inconfundível 1920 para o indispensável “cheirinho”. Aqui juntam, nas noites de luar e do calor inclemente de Pemba, os pais e avôs levam os filhos netos.
Para o Jorge “Zimbabwe” Carapito a ideia do Maíto “peca” por o Mumbulá atrair os alunos do colégio que funciona nas traseiras da Igreja. O aproveitamento pedagógico dos jovens alunos não ultrapassa os 10%. Simplesmente porque eles não pensam noutra coisa senão nos intervalos entre as aulas. Deu o toque e a meninada instala-se barulhenta no Quiosque e com os trocados surripiados aos pais lá adquirem um sumo e um biscoito. Calculo a bagunça que por ali vai acontecer quando se instalar a máquina dos sorvetes.
Esquecia-me: a simpatia da Vanessa, filha do Maíto, dá outra beleza ao Mumbulá, transportando-nos para os antigamentes da nossa juventude nas farras em casa do Maíto, do Toné, dos Rosários ... na Cumilamba.(X)

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


A erosão, é verdade, é um cancro maligno que dilacera impiedosamente o distrito costeiro de Mecufi. Há anos. Antes mesmo da independência nacional.
O fenómeno abate-se com maior inclemência sobre a praia e as várias tentativas para aplacá-lo de nada serviram. Os estudos científicos para a correcção da acção do oceano e do homem não passam disso mesmo. Muitos mas engavetados.
Desapareceram da praia a prancha para o mergulho. Os parrôs implantados nas frondosas causuarinas nem sequer deixaram marcas. Do balneário só restam o entulho em forma de pedra. As raízes desventradas dos coqueiros são como que a prova de que ali se bebericava whisky com agua de lanho.
O barquito “pilotado” pelo velho Jenguesse já lá não está... para meu desgosto, uma vez que, para além da travessia (paga) para Kambala, com ele “navegavamos” entre os inúmeros canais e mangais até “aportar” em Muária, aldeia construída já depois da independência nacional.
O bar do Herculano Faria está numa lástima à espera que um diferendo qualquer, inexplicável, seja sanado. Ali perto funciona uma cabana feita com macuti
Reduzido devido à invasão das aguas do mar o terreno que utilizavamos para acampanar com tendas feitas de macuti e bambu, simplesmente já não existe.

Pemba: impressões após nove anos de ausência


“Prato da Baía”. Nome de uma barraca de comes e bebes. Construída com material local, está situada na que hoje chamam avenida 16 de junho, no meio entre o fim da estrada alcatroada e o que foi quartel dos fuzileiros navais portuguses.
A especialidade são os pratos tradionais, como o tocossado, acompanhado pela incontornável muatranca e o kitore (arroz e feijão nhemba moído) que podem ser servidos na sala de todos ou no quintal, debaixo da mangueira.
A casa, constituída por uma meia dúzia de beldades locais e por um “puto” de porte boxeur para desencorajar os atrevidos, é administrada pela Dona Abiba.
Recomendo a casa a todos quantos se orgulham de ser “bons garfos”, assim como mo recomendaram a mim, às médicas Benedita e Gisela, às duas Julietas (Dimande, minha companheira, e Mussanhane, minha colega), bem como ao Fernando Canana, muito patusco Delegado da RM.
Aviso: para um bom servicinho, à maneira, recomenda-se encomenda antecipadissíma. Contacto - Dona Abiba (82 724 9 722).

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


A vila de Mecufi, 50 kilometros a sul de Pemba, foi iluminada durante vários anos por um gerador eléctrico a diesel, propriedade da administração. Os gastos no combustível eram tão elevados que a iluminação pública e nas residências dos funcionários e algumas poucas lojas era providenciada apenas entre as 18 e as 22 horas ou, aos fins de semana, até à meia noite.
Hoje, Mecufi, está ligada à Rede Nacional de Energia, possuindo uma pequena substação exactamente no local onde funcionava a velha central eléctrica.
No dia da inauguração do novo e moderno sistema escrevi a crónica que se pode ler a seguir. Foi transmitida no jornal sonoro da Rádio Moçambique.

"A minha crónica tem este título: “Aquinthuna Wonna Athu Elhaka Enhonda”, que, traduzido de Macua para português, significa qualquer coisa como “Não quero ver ninguém a comer apenas peixe seco”.
Ora vejamos: Num mundo em que há muito pouca coisa para nos alegrar e tanta tristeja para infernar ainda mais as nossas vidas, não é todos os dias que nos sentimos realmente satisfeitos e, por momentos, gozamos de alguma leveza de espírito interior, qual pássaro a rasgar o céu, como dono e senhor.
Hoje, 22, caro leitor, levantei-me do meu catre bem disposto: comigo mesmo, com os vizinhos, com o meu cão-guarda, com a irritante vendedeira de hortaliça, enfim, bem disposto com tudo e todos.
A boa disposição foi-me transmitida pelo meu colega e amigo, Óscar Limbombo de seu nome, a partir de uma pacata vila, situada a cinquenta quilómetros a sul da cidade de Pemba.
Óscar Limbombo, esse malabarista que mesmo sem uma antena das telefonia móvel ou fixa, lá conseguiu “despachar” para o Jornal da Manhã da Rádio Moçambique, uma notícia tão simples mas ao mesmo tempo tão gratificante como esta: o velho gerador de energia eléctrica de Mecufi passava a partir de hoje à reforma. Em seu lugar as gentes de aldeias como Muária, Sassalane, Nthakane, e se calhar, de Kambala, passam a ser iluminadas pela corrente eléctrica da nossa Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Que Mecufi, enfim, entrava a partir de hoje, numa nova era do seu desenvolvimento. Quer dizer: os produtos marinhos, como peixe, camarão, lagosta, Mbare, capturados nas aguas do índico, já não iriam ser apenas fumados ou postos a secar por falta de meios frios, que agora se poderá pô-los a congelar e, assim, enviá-los para outros pontos da província e resto do país, para a sua comercialização. Aqui está o sentido do título desta minha crónica.
O Limbombo, como só ele, não se esqueceu de registar a voz de uma beldade que, tão inocentemente, sintetizou a alegria das gentes de Mecufi: “Agora vamos comprar geleiras e congeladores para pormos o nosso peixe”. Aí está o que é uma conquista que, aos olhos de gente que vive nas cidades, é tão corriqueira tanto quanto o ar que respiramos.
Uma conquista que me deixou bastante bem disposto, mas ao mesmo tempo com uma pontinha de tristeza. Porquê?, perguntar-se-á o leitor.
É o seguinte: quando ainda adolescente, e vivendo eu em Mecufi com irmãos e amigos: Roque, Luís, Adolfo, Sidónio, Germano, Quim e Melita Russo de Sá, a Cleid e o Meco, o gerador de energia que hoje vai a reforma, iluminou as nossas casas e permitia que, entre as 18 e as 22 horas, pudessemos ler e ouvir música e dançar. Não passavamos daquele limite, o combustível mesmo nessa altura (1970/73) já era ... caro.
O bonacheirão do Manuel, então encarregado de ligar e desligar este gerador que hoje vai a reforma em Mecufi, de quando em vez, lá adormecia e esquecia-se que estava na central eléctrica, o que nos valia mais uma ou duas horas de corrente eléctrica para nos divertirmos. Assim acontecia porque lhe corrompiamos com uma garrafinha de “Mwaken Mwalo”(*) da primeira. E uns "Mata Ratos" Kwekwero.
Não queria terminar esta minha crónica sem homenagear dois homens que marcaram de certa forma a infância de muitos das gentes de Mecufi. São eles, Genkwesse (barqueiro) e Chiquito (mecânico), zelesos funcionários da Administração desta vila que hoje, teve em Armando Guebuza não o Manuel da antiga Central Eléctrica, mas o accionador da energia eléctrica de Cabora Bassa rumo ao desenvolvimento de Mecufi, de Cabo Delgado, enfim desta Pérola do Índico. Akinathiwona, pá..., ou seja, “só visto...”."

(*) Mwaken Mwalo: "Arranca-lhe a faca" em ximácua

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pemba: impressões após nove anos de ausência




15/26 de outúbro: período da minha estada na cidade de Pemba, após nove anos de uma ausência involuntária. A curiosidade era tanta, alimentada pelas informações que, regularmente, me eram fornecidas por amigos e familiares que lá vivem ou que para lá se deslocavam: que a cidade cresceu muito; que o turismo imprimiu à urbe outros hábitos de vida; que as caras eram outras uma vez que as conhecidas, com o decorrer dos anos e na pior das hipóteses, desapareceram para sempre ou que imigraram para outras paragens.
A minha principal curiosidade, tal como muitos outros que conheceram Pemba noutros tempos, estava centrada no famoso Pemba Beach Hotel e nas transformações porque passara a praia do Wimbe. Enfim, queria testemunhar pessoalmente a “metamorfose” que se abateu sobre uma cidade e suas gentes que, confesso-o, exerceram uma grande influência sobre a minha pessoa. O que hoje sou (ou grande parte) foi moldado na capital da província de Cabo Delgado. Por isso mesmo posso me reservar o direito de pertencer de corpo e alma àquela (ainda) bonita cidade.

Pemba: impressões após nove anos de ausência




O Hotel Cabo Delgado, cuja construção e funcionamento acompenhei de perto (foi inaugurado em 1970), os prédios habitacionais como o do Cunha Alegre (onde vivi durante alguns anos), da ex-Manuntenção Militar, do Bispo (7 andares) e da Deta (Lam), só para citar alguns exemplos, terão servido para aquilatar o quão Pemba se transformou.
Confesso que não fiquei lá muito surpreendido com o que vi uma vez que, em comparação com o que nove anos tinha constatado, o estado de degradação permaneceu o mesmo, com a diferença de que, a zona alberga agora instituições que anteriormente não existiam.
Fiquei profundamente desolado, isso sim, foi com a transformação de dois importantes locais de lazer em barracas de comes e bebes (de prostituição também), de pequeno comércio e outros serviços. Estou a referir-me ao Clube Desportivo e ao Parque Infantil.
Julgo que os gestores da cidade cometeram um erro para o qual terão, no futuro, grandes dificuldades para corrígi-lo.
A cidade de Pemba perdeu duas importantes infra-estruturas que tiveram – e que poderiam continuar a ter – grande importancia na educação e formação da sua juventude: O Desportivo e o terreno adjacente, que serviu para a realização de bailes e outros convívios salutares e também para a prática de modalidades como o Futebol de Salão e o Basquetbol, está hoje entulhado de barracas onde imperam o vício e a má conduta; de venda de quinquilharias e electrodomésticos da mais baixa qualidade e, dizem, pessoas provenientes de outras latitudes mais a norte do país, a coberto do pequeno comércio, escondem actividades ilícitas como o tráfico de drogas.
Incompreensível para mim foi como foi possível a edilidade ter autorizado a transformação do pequeno zoo e da pequena biblioteca em instalação para a revelação de fotografias; como se deixou em estado de completo abandono o mini-cinema. Acrescento a este rol de apectos negativos, a transformação da Pastelaria “Triunfo” num estabelecimento de venda de ferragens. É uma aberração.
O intenso movimento que se regista nesta zona central da cidade de Pemba, longe de significar o desenvolvimento e consequente melhoria da vida da população, apenas reproduz fielmente o “modus vivendi” de outras urbes africanas: milhares e milhares de pessoas que deambulam de um lado para outro sem nenhuma ocupação e, pior, sem nenhuma perspectiva para o seu futuro. São jovens aos magotes que se movimentam sem elas próprias saberem para quê e para onde, vivendo o imediato de uns trocados que lhes satisfaz fugazmente as necessidades básicas, para no fim e num ciclo vicioso, regressarem à casa – se é que a tem – sem terem feito absolutamente nada para as suas vidas.

Pemba: impressões após nove anos de ausência




No decurso da minha estada na cidade de Pemba fiquei hospedado na casa do meu amigo Faruk Jamal, implantada mesmo à beira da praia da Maringanha, uns kilometros depois da emblemática praia do Wimbe.
Aqui, para além de ter desfrutado de condições principescas e de um acolhimento de irmandade dispensados pelo Faruk e sua companheira Shakila, passei alguns dias de absoluta calma, algo que há muito não experimentava.
A tranquilidade, o silêncio “rasgado” apenas pelo bater das ondas nas rochas madrugada adentro, os cajueiros com os frutos como há muito não via, os pescadores com as canoas a deslizarem suavemente no horizonte do mar alto, as raparigas e as mulheres inclinadas sobre si próprias a apanhar as ostras entre as pedras, as areais brancas, as algas de um verde reluzente, as grutas com galerias, o velho e solitário farol, tudo isso, teve o condão de um apaziguamento para comigo mesmo, permitindo-me o que na selva de Maputo não é possível: reflectir sobre o sentido da vida.
A praia do Wimbe conheceu, é verdade, um crescimento notável, destacando-se a existência de novas residências e locais de pasto e de entretenimento, para não falar do Casino pertença, ao que julgo, do meu amigo e antigo colega de escola Humberto Monteiro.
Fiquei agradavelmente surpreendido com as melhorias feitas no que foi outrora um pequeno bar, hoje Mar e Sol do Renato Chambarlain e da Eugénia Gaspar, local onde se pode degustar uns bons pratos de peixe pedra, do vermelho e do xaréu, para além, é claro, sorver, com toda a calma do mundo, umas bem geladinhas “2M” e Whisky com agua do lanho. O mesmo se pode dizer do “Nautilus”, embora aqui não deixe de torcer o nariz pelo facto de ter descurado a verdadeira função do local: o Clube Naútico, onde a criançada aprendia a canoagem, a natação e o salvamento em caso de afogamento.
O intenso movimento de pessoas que se regista aos fins de semana, sobretudo aos domingos, é algo que defrauda qualquer observador. No fundo, aquelas milhares de pessoas, sobretudo crianças de ambos os sexos, entulham a praia do Wimbe não para se refazerem da canseira da semana de trabalho ou escolar, juntamente com a família e amigos, mas sim para incomodar. São crianças que circulam por ali, à caça de algumas moedas ou, o que é pior, para surripiar algo como telemóveis e outros bens dos que, na realidade, ali se deslocam para descançar. Ao fim da tarde, aos milhares, aqueles “turistas”, pegam a estrada a pé de regresso às suas casas. Chamar a este fenómeno sinónimo de crescimento turístico da praia do Wimbe é simplesmente falso.

Pemba: impressões após nove anos de ausência


Já ouvira pelos relatos de amigos e da comunicação social: a ocupação desordenada dos espaços e os efeitos da erosão causados pela acção do homem. Não tinha a exacta dimensão dos estragos.
As imagens fotográficas que registei são elucidativas. Impressiona a construção de bairros em locais impróprios, como por exemplo, pelas bermas da estrada que liga a cidade ao aeroporto e nas ravinas, outrora lindissímas, que “beijam” a baía e visíveis a partir do cemitério municipal.
Para aquelas bandas existiam a não menos famosa praia da Sagal e aquela que nós, ainda crianças, chamavamos de “praia dos nús” porque nela banhavamo-nos completamente pelados.
Pelo que me informaram estes locais desapareceram ou foram simplesmente ocupados para outros fins, com todas as consequências nefastas sobre o eco-sistema.
Não tive tempo de visitar outros locais que conheci na minha meninice, como por exemplo, os bairros e praias de Paquitiquete, Cumissete, Cumilamba, “fuzileiros” e Inos. Pelo que me informaram, o cenário hoje é outro e ... confragedor. Pior: com "minas" humanas.
De relance vi o que me pareceu ser a “Meia Via” e a sua corcomida piscina que, ao que me pareceu, está a ruir devido aos efeitos do salitre.
Consolou-me o facto de a “febre” de constuir em todo o lado e de forma desordenada não ter atingido os centenários e portentosos imbondeiros: a maior parte continuam de pé. Espero que se continue a presevar aquela espécie de planta, deixando que as que ainda estão de pé, caiam por si mesma, como aquela que existia na Cumilamba até bem pouco tempo e que morreu devido à sua longevidade.

Pemba: impressões após nove anos de ausência




Mecufi, dista cinquenta quilometros da cidade de Pemba. Uma pacata vila implantada à beira do oceano, bonita pelas suas praias com mangais e conhecida até por não residentes em Cabo Delgado, pela sua cestaria em palha.
Ali viveu e trabalhou a minha proginitora como parteira e os meus irmãos mais novos, Sidónio e Germano. Nas férias escolares para ali ia descançar juntamente com os meus irmãos, Roque, Luís e o Adolfo e os nossos amigos, o Meco e a Claid e o Quim e a Melita e as irmãs Boene, entre outros. Mecufi é a terra de outros amigos como os irmãos Neves: Aguinaldo, Antuía, o Bernardino (já falecido) e o Adolfo. Mecufi, algumas vezes, acolheu alguns acampamentos de Escuteiros, nos quais estavam filiado, entre outros, eu próprio, o João Tique, o Chico Ávila, o Amaral “Russo”, etc.
Por algumas horas tive o prazer de visitar Mecufi. Já é iluminada pela Rede Nacional de Energia (HCB) em substituição do velho gerador que funcionava das 18 as 22 horas. Os edifícios públicos (Administração, Centro de Saúde e Residências dos funcionários) estão em bom estado de conservação, inluindo a pequena capela.
O mesmo não se pode dizer da praia e dos parrôs, balneário e da prancha: desapareceram, como também alguns coqueiros. A erosão, um problema antigo, não foi travado. O bar do Herculano Faria está simplesmente uma ruína. Em avançado estado de degradação estão as cantinas. Quanto à cestaria e as mobílias de kambala, essas, estão desprovidas da qualidade do antigamente. Por culpa da excessiva procura. O turismo tem destas, infelizmente.
O novo em Mecufi é a casa de pasto pertença do Assane, esse proprietário da Pensão Baía. Defronte da praia e com uma vista extraordinária, serve bons pratos de peixe e outros produtos marinhos.
Fiquei orgulhoso com as modestas mas aprazíveis casas (duas) do meu antigo colega e amigo, o João Lopes ou simplesmente Buda. Disse-me que não são para aluguer mas para usofruto pessoal e de amigos e antigos colegas. Força camarada.

sábado, 18 de outubro de 2008

Pemba: um desenvolvimento que nos vai custar o futuro















A terceira maior baía do mundo ou, para ser mais embelezador, aquela que é uma das Trinta Mais Bonitas Baías do Mundo, Pemba, está a conhecer um acelerado desenvolvimento, depois de anos de um marasmo que tornava um inferno a vida dos seus habitantes.

A beleza das suas inúmeras praias, a afabilidade e a hospitalidade das suas gentes e um clima para todos os gostos, estão a ser potenciados para criar riqueza, fomentando o turismo “cinco estrelas”.

Inúmeras infra-estruturas, entre os quais o Pemba Beach, foram erguidos ao longo da orla da cidade, atraindo milhares de turistas europeus, americanos e asiáticos, que aqui “drenam” dinheiro, a níveis tais que acaba tendo um efeito benéfico na vida da população.

Aos meus olhos e depois de uma neurasténica ausência de nove anos, Pemba deu um salto em frente, deixando para trás outras cidades moçambicanas.

Contudo, quer me parecer que o “pecado mortal” da febre colectiva de desenvolvimento, abateu-se irreversívelmente sobre Pemba, levando muitos gestores da cidade a não acautelarem efeitos que, mesmo que colaterais, irão nos custar bastante caro num futuro próximo: em termos económicos e sobretudo culturais.

Não creio que desconheçamos as experiências desenvolvementistas que nos chegam de outras paragens do mundo, denunciando estragos cujos malefícios irremediavelmente serão corrigidos.

Aponto apenas dois exemplos para exemplificar esta minha opinião, admitindo desde já que me possam incluir na lista daqueles que muitos jovens quadros em matéria de políticas de urbanização chamam de “parado no tempo”.

Primeiro Caso: O que outrora foi um pequeno Clube Nautíco virou hoje uma casa do jogo de azar, ou seja, um Casino. Trata-se de uma actividade prevista no nosso ordenamento jurídico, que permite a colecta de importantes fundos para o erário público. Nisso, creio, estamos de acordo. O que me faz moça é que desapareceu o Clube Naútico e com ele a sua função de ministrar aulas de canoagem e natação às crianças. O investimento para o Casino não incluiu a transferência do Clube Naútico para um outro local.

Segundo Caso: Até finais dos anos oitenta, o Parque Infantil foi um local de lazer para milhares de crianças da cidade de Pemba que ali assistiam filmes infantis educativos e deliciavam-se com as acrobacias de macacos, a graciosidade das gazelas e o cantar de diversas espécies de passarinhos. Quer dizer, aquelas crianças, algumas das quais hoje são quadros técnicos deste país, tomavam o contacto com o mundo exterior e com a natureza.
O Parque desapareceu, virou um conjunto de barracas de prestação de serviços, e, como que a testemunhar importantes referências culturais, o cinema infantil lá está, teimando em não ser vítima do desenvolvimento cego mas permitindo que uma maçaniqueira enterre as suas raízes no intervalo entre os bancos de cimento como que a defender-se da fúria das marretas e picaretas.

A todos nós: Desenvolvamos o nosso sim. Mas com cautela para não comprometermos o futuro dos nossos filhos.

Pemba: nove anos de uma ausencia torturante

Os ponteiros do relógio marcavam exactamente as 4 horas da madruagada do dia 17 quando “violamos” os portões da cidade de Pemba, terminando assim uma viagem – excursão, para certo mais exacto – iniciada em Maputo no dia 15, quarta-feira.

Feitas as contas, a nossa pequena/grande odisseia durou 50 horas, percorreu mais ou menos 2.500 kilometros, atravessou as províncias de Gaza e Inhambane, no sul, Sofala e Zambézia no centro e Nampula, no norte, entrando depois, pelo distrito de Chiúre, na província de Cabo Delgado.

Foi uma viagem que aconteceu praticamente sem sobressaltos, que permitiu aos excursionistas (pouco mais de cinquenta) conhecerem melhor o país profundo, vendo, avaliando e analisando o que, muitos deles, só através dos meios de comunicação social, tinham ouvido falar.

Impressionou a todos o esforço que está a ser dispendido numa mais praticável e moderna ligação rodoviária entre o sul, cento e norte do país, com a edificação da ponte sobre o Zambeze a pontificar uns furos mais acima que outros projectos; a disseminação por todo o lado de infra-estruturas escolares e sanitárias; o desabrochar intenso do turismo para todos os bolsos. Mas o que mais me marcou terá sido a tranquilidade e o ambiente de paz sob o qual decorre o movimento de pessoas e seus pertences.

O percurso rodoviário na Estrada Nacional UM pode – e certamente que irá – durar muito menos tempo do que aquele que dispendemos. Tal ainda não é possível porque, à par de longos troços que se lhes pode tirar o chapéu, outros há – poucos – que se apresentam problemáticos: refiro-me aos trajectos Massinga/Pambarra em Inhambane e Mocuba/Alto Molocué na Zambézia. Consola o facto de estarem a ser submetidos a obras de construção de raiz ou reabilitação.

Ao fim e ao cabo, para exursionistas como nós, alguns dos quais (eu) não tão jovens como isso, fez bem ouvir e sentir o chocalhar dos ossos. Afinal são os tais ossos do ofício.

Nove anos depois da minha última estada, entro em Pemba e apanho de imediato o primeiro embate “assustador”: o silêncio, a tranqulidade, a paz de espírito que as gentes desta cidade experimentam e respiram. Tomara, para um residente no grande rebuliço, confuso e desnorteado Maputo, a terceira maior baía do Mundo e uma das trinta mais belas à escala planetária, é simplesmente uma espécie de Éden.

Um Éden do qual vou desfrutar até dizer basta nos longos dias da minha estada, aproveitando da melhor forma as festividades dos 50 anos da elevação de Pemba à categoria de cidade.

Minutos após a nossa instalação numa unidade hoteleira local, recebi no meu telemóvel uma SMS recordando-me uma bonita canção interpretada pela cantora brasileira Maria Bethânia que diz mais ou menis assim: “Foram me avisar para pisar este chão devagarinho”. Que é como quem diz “em Pemba não há maçãs, mas existe muita, mas muita maçanica saborosa”. Ayuwéééé.