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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A mangueira de Mecufi

Esta mangueira, cuja imagem registei em outúbro último, encontra-se nos terrenos da maternidade do Centro de Saúde de Mecufi, 50 Km de Pemba. Diz-se que terá sido plantada no início da década de 60 do século passado pelo "velho" Bacar, servente do centro, já falecido.
Com manga muito saborosa, com uma copa frondosa, a sua sombra serve até hoje para os utentes do centro como refúgio do sol abrasador.
Nos anos setenta esta mangueira serviu também para almoçaradas que a parteira proporcionava à minha pessoa e aos meus amigos quando, aos fins de semana, "fugiamos" do rebuliço de Pemba para o merecido descanço. Almoçaradas que começavam a meio da manhã de um sábado e terminavam ao fim da tarde do domingo seguinte. Caranguejo, camarão, peixe de toda a espécie, carne de cabrito ou de javali, tais eram as iguarias. Na falta da cerveja, o sumo de cajú fermentado, vulgo Mutchekele, era "raínha".
Entre os "comensais" cito alguns nomes "sonantes": Renato Carrilho (Gunass), Camilo de Sousa, Mahomed Galibo, Luís Alvarinho, Mário Mangaze e Sinai Nhatitima (sim, esses mesmo) e tantos outros.
O Gerry, meu irmão cassula, quando ainda com 8/9 anos, jogando à bola com o seu amigo Orlando debaixo desta mangueira, fez história em Mecufi: provocou um pacífico enxame de abelhas. A vila, ou melhor, os seus habitantes, experimentaram, sem excepção, a fúria e a dor causada pelo ferrão daqueles produtores de mel.
O refúgio foi a praia. Nesse dia Mecufi esteve em tolerância de ponto.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


A erosão, é verdade, é um cancro maligno que dilacera impiedosamente o distrito costeiro de Mecufi. Há anos. Antes mesmo da independência nacional.
O fenómeno abate-se com maior inclemência sobre a praia e as várias tentativas para aplacá-lo de nada serviram. Os estudos científicos para a correcção da acção do oceano e do homem não passam disso mesmo. Muitos mas engavetados.
Desapareceram da praia a prancha para o mergulho. Os parrôs implantados nas frondosas causuarinas nem sequer deixaram marcas. Do balneário só restam o entulho em forma de pedra. As raízes desventradas dos coqueiros são como que a prova de que ali se bebericava whisky com agua de lanho.
O barquito “pilotado” pelo velho Jenguesse já lá não está... para meu desgosto, uma vez que, para além da travessia (paga) para Kambala, com ele “navegavamos” entre os inúmeros canais e mangais até “aportar” em Muária, aldeia construída já depois da independência nacional.
O bar do Herculano Faria está numa lástima à espera que um diferendo qualquer, inexplicável, seja sanado. Ali perto funciona uma cabana feita com macuti
Reduzido devido à invasão das aguas do mar o terreno que utilizavamos para acampanar com tendas feitas de macuti e bambu, simplesmente já não existe.

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


Para Mecufi ia para as férias escolares. Ficava alojado nos aposentos da maternidade local, onde a minha progenitora, Cristina, labutava e residia como parteira.
O quarto, minuscúlo, era meias-portas com a sala de partos e enfermaria para as parturientes. Testemunhei o “vir ao mundo” de muita criança, quar através dos “berros” das mães contorcendo-se com as dores de parto, quer com o som das pancadas nas nádegas das parturientes que a minha “velha” ferrava nelas, utilizando para tal uma ripa dos barris de vinho, para força-las a trazer para a vida o ser que se encontrava alojado no ventre.
Nas traseiras desta “primeira casa” de muitos, a velha Cristina, tinha um curral com mais de uma centena de cabritos sob a guarda de um macambúzio tão “panhonha” quanto àqueles animais.
Para suprir as necessidades em carnes para as farras na Cumilamba muitos daqueles caprinos foram por mim “roubados”, fazendo-me transportar numa velha Canter posta à disposição pelas “cozinheiras” Line Gaspar e Lena do Rosário para o servicinho. Elas estavam ao corrente do meu “ilícito”. Não estarei enganado se disser que entre dez e quinze cabritos “desapareceram” do curral de Mecufi directamente para as panelas das cozinhas da Cumilamba. A velha, quando se dava conta do “roubo” ia aos correios da administração de Mecufi, berrava comigo pelo telefone à manivela que ali funcionava.
A mangueira que se vê na imagem proporcionava uma fresca sombra para os almoços do fim de semana, onde, para além do guisado de cabrito, empaturravamo-nos de carne estufada de javali que o Chiquito Gonzaga, uma vez por semana, caçava nas languas à entrada de Mecufi e distribuía pelos poucos funcionários públicos: Administrador e Administrador-Adjunto, Escriturário e Mecânico, Enfermeiro e Parteira e o Professor.
Nesta mangueira, recordo-me, almoçaram e saborearam o famoso “mutchekele” (sumo de cajú fermentado) duas eminentes personalidades do judiciário nacional: Os Doutores Mário Mangaze, Presidente do TS e Sinai Nhatitima, Juíz-Conselheiro do TAdministrativo. Para além de outros amigos e colegas, como seja o Camilo de Sousa (cineasta), o Luís Alvarinho (já falecido), o Albano Mendes Narroromele (advogado) e o Renato Carrilho (Gunassi).

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


A vila de Mecufi, 50 kilometros a sul de Pemba, foi iluminada durante vários anos por um gerador eléctrico a diesel, propriedade da administração. Os gastos no combustível eram tão elevados que a iluminação pública e nas residências dos funcionários e algumas poucas lojas era providenciada apenas entre as 18 e as 22 horas ou, aos fins de semana, até à meia noite.
Hoje, Mecufi, está ligada à Rede Nacional de Energia, possuindo uma pequena substação exactamente no local onde funcionava a velha central eléctrica.
No dia da inauguração do novo e moderno sistema escrevi a crónica que se pode ler a seguir. Foi transmitida no jornal sonoro da Rádio Moçambique.

"A minha crónica tem este título: “Aquinthuna Wonna Athu Elhaka Enhonda”, que, traduzido de Macua para português, significa qualquer coisa como “Não quero ver ninguém a comer apenas peixe seco”.
Ora vejamos: Num mundo em que há muito pouca coisa para nos alegrar e tanta tristeja para infernar ainda mais as nossas vidas, não é todos os dias que nos sentimos realmente satisfeitos e, por momentos, gozamos de alguma leveza de espírito interior, qual pássaro a rasgar o céu, como dono e senhor.
Hoje, 22, caro leitor, levantei-me do meu catre bem disposto: comigo mesmo, com os vizinhos, com o meu cão-guarda, com a irritante vendedeira de hortaliça, enfim, bem disposto com tudo e todos.
A boa disposição foi-me transmitida pelo meu colega e amigo, Óscar Limbombo de seu nome, a partir de uma pacata vila, situada a cinquenta quilómetros a sul da cidade de Pemba.
Óscar Limbombo, esse malabarista que mesmo sem uma antena das telefonia móvel ou fixa, lá conseguiu “despachar” para o Jornal da Manhã da Rádio Moçambique, uma notícia tão simples mas ao mesmo tempo tão gratificante como esta: o velho gerador de energia eléctrica de Mecufi passava a partir de hoje à reforma. Em seu lugar as gentes de aldeias como Muária, Sassalane, Nthakane, e se calhar, de Kambala, passam a ser iluminadas pela corrente eléctrica da nossa Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Que Mecufi, enfim, entrava a partir de hoje, numa nova era do seu desenvolvimento. Quer dizer: os produtos marinhos, como peixe, camarão, lagosta, Mbare, capturados nas aguas do índico, já não iriam ser apenas fumados ou postos a secar por falta de meios frios, que agora se poderá pô-los a congelar e, assim, enviá-los para outros pontos da província e resto do país, para a sua comercialização. Aqui está o sentido do título desta minha crónica.
O Limbombo, como só ele, não se esqueceu de registar a voz de uma beldade que, tão inocentemente, sintetizou a alegria das gentes de Mecufi: “Agora vamos comprar geleiras e congeladores para pormos o nosso peixe”. Aí está o que é uma conquista que, aos olhos de gente que vive nas cidades, é tão corriqueira tanto quanto o ar que respiramos.
Uma conquista que me deixou bastante bem disposto, mas ao mesmo tempo com uma pontinha de tristeza. Porquê?, perguntar-se-á o leitor.
É o seguinte: quando ainda adolescente, e vivendo eu em Mecufi com irmãos e amigos: Roque, Luís, Adolfo, Sidónio, Germano, Quim e Melita Russo de Sá, a Cleid e o Meco, o gerador de energia que hoje vai a reforma, iluminou as nossas casas e permitia que, entre as 18 e as 22 horas, pudessemos ler e ouvir música e dançar. Não passavamos daquele limite, o combustível mesmo nessa altura (1970/73) já era ... caro.
O bonacheirão do Manuel, então encarregado de ligar e desligar este gerador que hoje vai a reforma em Mecufi, de quando em vez, lá adormecia e esquecia-se que estava na central eléctrica, o que nos valia mais uma ou duas horas de corrente eléctrica para nos divertirmos. Assim acontecia porque lhe corrompiamos com uma garrafinha de “Mwaken Mwalo”(*) da primeira. E uns "Mata Ratos" Kwekwero.
Não queria terminar esta minha crónica sem homenagear dois homens que marcaram de certa forma a infância de muitos das gentes de Mecufi. São eles, Genkwesse (barqueiro) e Chiquito (mecânico), zelesos funcionários da Administração desta vila que hoje, teve em Armando Guebuza não o Manuel da antiga Central Eléctrica, mas o accionador da energia eléctrica de Cabora Bassa rumo ao desenvolvimento de Mecufi, de Cabo Delgado, enfim desta Pérola do Índico. Akinathiwona, pá..., ou seja, “só visto...”."

(*) Mwaken Mwalo: "Arranca-lhe a faca" em ximácua

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pemba: impressões após nove anos de ausência




Mecufi, dista cinquenta quilometros da cidade de Pemba. Uma pacata vila implantada à beira do oceano, bonita pelas suas praias com mangais e conhecida até por não residentes em Cabo Delgado, pela sua cestaria em palha.
Ali viveu e trabalhou a minha proginitora como parteira e os meus irmãos mais novos, Sidónio e Germano. Nas férias escolares para ali ia descançar juntamente com os meus irmãos, Roque, Luís e o Adolfo e os nossos amigos, o Meco e a Claid e o Quim e a Melita e as irmãs Boene, entre outros. Mecufi é a terra de outros amigos como os irmãos Neves: Aguinaldo, Antuía, o Bernardino (já falecido) e o Adolfo. Mecufi, algumas vezes, acolheu alguns acampamentos de Escuteiros, nos quais estavam filiado, entre outros, eu próprio, o João Tique, o Chico Ávila, o Amaral “Russo”, etc.
Por algumas horas tive o prazer de visitar Mecufi. Já é iluminada pela Rede Nacional de Energia (HCB) em substituição do velho gerador que funcionava das 18 as 22 horas. Os edifícios públicos (Administração, Centro de Saúde e Residências dos funcionários) estão em bom estado de conservação, inluindo a pequena capela.
O mesmo não se pode dizer da praia e dos parrôs, balneário e da prancha: desapareceram, como também alguns coqueiros. A erosão, um problema antigo, não foi travado. O bar do Herculano Faria está simplesmente uma ruína. Em avançado estado de degradação estão as cantinas. Quanto à cestaria e as mobílias de kambala, essas, estão desprovidas da qualidade do antigamente. Por culpa da excessiva procura. O turismo tem destas, infelizmente.
O novo em Mecufi é a casa de pasto pertença do Assane, esse proprietário da Pensão Baía. Defronte da praia e com uma vista extraordinária, serve bons pratos de peixe e outros produtos marinhos.
Fiquei orgulhoso com as modestas mas aprazíveis casas (duas) do meu antigo colega e amigo, o João Lopes ou simplesmente Buda. Disse-me que não são para aluguer mas para usofruto pessoal e de amigos e antigos colegas. Força camarada.