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sábado, 6 de junho de 2009

Moçambique: Aldeia em Cabo Delgado abandonada devido aos elefantes

Uma aldeia da província moçambicana de Cabo Delgado foi abandonada e os habitantes fundaram uma nova, para fugir aos elefantes que lhes destruíam sistematicamente as culturas.

Cinco mil pessoas do posto administrativo de Bilibiza, distrito de Quissanga, em Cabo Delgado, deixaram a sua aldeia, Nraha, para fugir às constantes incursões dos elefantes do Parque Nacional das Quirimbas.

A movimentação dos habitantes da aldeia começou em Abril, estando a comunidade a recomeçar a vida próximo de outra aldeia, Namadai, onde há menos elefantes.

Os habitantes de Nraha queixavam-se que além de verem as culturas destruídas, as crianças também não podiam ir à escola, ocupadas que estavam a afugentar os elefantes das “machambas” (áreas de cultivo).

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A mangueira de Mecufi

Esta mangueira, cuja imagem registei em outúbro último, encontra-se nos terrenos da maternidade do Centro de Saúde de Mecufi, 50 Km de Pemba. Diz-se que terá sido plantada no início da década de 60 do século passado pelo "velho" Bacar, servente do centro, já falecido.
Com manga muito saborosa, com uma copa frondosa, a sua sombra serve até hoje para os utentes do centro como refúgio do sol abrasador.
Nos anos setenta esta mangueira serviu também para almoçaradas que a parteira proporcionava à minha pessoa e aos meus amigos quando, aos fins de semana, "fugiamos" do rebuliço de Pemba para o merecido descanço. Almoçaradas que começavam a meio da manhã de um sábado e terminavam ao fim da tarde do domingo seguinte. Caranguejo, camarão, peixe de toda a espécie, carne de cabrito ou de javali, tais eram as iguarias. Na falta da cerveja, o sumo de cajú fermentado, vulgo Mutchekele, era "raínha".
Entre os "comensais" cito alguns nomes "sonantes": Renato Carrilho (Gunass), Camilo de Sousa, Mahomed Galibo, Luís Alvarinho, Mário Mangaze e Sinai Nhatitima (sim, esses mesmo) e tantos outros.
O Gerry, meu irmão cassula, quando ainda com 8/9 anos, jogando à bola com o seu amigo Orlando debaixo desta mangueira, fez história em Mecufi: provocou um pacífico enxame de abelhas. A vila, ou melhor, os seus habitantes, experimentaram, sem excepção, a fúria e a dor causada pelo ferrão daqueles produtores de mel.
O refúgio foi a praia. Nesse dia Mecufi esteve em tolerância de ponto.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Pemba: impressões após nove anos de ausência


Mar e Sol e Múmbula, são dois locais aprazíveis para retemperar as forças, seja conversando com amigos, a ler, a tomar umas “2M” bem geladas, seja para “lavar” a vista apreciando belissímas esculturas humanas que desfilam numa passarela de areia fina e branca da praia e... mergulhar nas aguas de um verde-azulado claro do oceano índico.
O Mar e Sol encontra-se no Wimbe. É tão ou mais velhinho do que eu. Nos anos passados não passava de um pequeno bar onde mais se bebia do que degustar uma boa iguaria. Passou por muitas mãos. Hoje é explorado e bem pelo conhecido casal Renato Chambarlain e Eugénia Gaspar. Que o redimensionou aproveitando os espaços que o circundam e acrescentando-lhe um ou dois parrôs. E uma vedação que não “ofende” a praia.
Como sempre o Mar e Sol é ponto incontornável de encontro, da cavaqueira e das “novidades” da terra, onde tive a oportunidade de “tachar” uns bons pratos de peixe pedra e lula grelhada e rever velhas amizades que há muito não via.
Lá se juntam aos domingos para além do casal Renato e Eugénia e os seus filhos, o João Mário e o Nanato, como também o Maíto e a Olga, o Nuro Americano e o Marabuto e o Abulatifo, os incorrigíveis Chico Rezende e Jorge “Zimbabwé” Carapito e o Faruk ... e os rebentos de velhos amigos já desaparecidos feitos candidatos a nossos sucessores (no copo e na ramboiada) e ... tanta malta de que se esqueceu os nomes porque durante anos se espalhou por aí ... vida a quantas obrigas...
O Mumbula: é um quiosque que funciona há menos de um mês. Vizinho do velho/renovado Hospital Provincial e da Pensão Transmontano (hoje loja das TDM). Foi construído nos espaços do Jardim Dona Amélia. Defronte da Igreja São Paulo. A ideia da sua edificação no local foi do Maíto (Mário Gaspar) e da Olga sua esposa. Com a preciosa ajuda do Issa Tarmamade na batalha de ultrapassar as dificuldades impostas por aqueles que “não fazem e nem deixam fazer”.
Com o Mumbula o jardim Dona Amélia ganhou vida e cor após anos a fio ao abandono e local de pastagem da cabritada. Nas cadeiras e mesas de plástico espalhadas entre as árvores pode-se bebericar um saboroso refrigerante, tomar uma bica, enquanto a criançada, sempre alegre e barulhenta, por ali baloiça e saltita. Por uma questão de respeito para com os crentes que frequentam a Igreja São Paulo não estão disponíveis bebidas alcoolicas, sobretudo cerveja, embora um bom apreciador de café tenha à sua disposição uma boa bagaceira ou um inconfundível 1920 para o indispensável “cheirinho”. Aqui juntam, nas noites de luar e do calor inclemente de Pemba, os pais e avôs levam os filhos netos.
Para o Jorge “Zimbabwe” Carapito a ideia do Maíto “peca” por o Mumbulá atrair os alunos do colégio que funciona nas traseiras da Igreja. O aproveitamento pedagógico dos jovens alunos não ultrapassa os 10%. Simplesmente porque eles não pensam noutra coisa senão nos intervalos entre as aulas. Deu o toque e a meninada instala-se barulhenta no Quiosque e com os trocados surripiados aos pais lá adquirem um sumo e um biscoito. Calculo a bagunça que por ali vai acontecer quando se instalar a máquina dos sorvetes.
Esquecia-me: a simpatia da Vanessa, filha do Maíto, dá outra beleza ao Mumbulá, transportando-nos para os antigamentes da nossa juventude nas farras em casa do Maíto, do Toné, dos Rosários ... na Cumilamba.(X)

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


A erosão, é verdade, é um cancro maligno que dilacera impiedosamente o distrito costeiro de Mecufi. Há anos. Antes mesmo da independência nacional.
O fenómeno abate-se com maior inclemência sobre a praia e as várias tentativas para aplacá-lo de nada serviram. Os estudos científicos para a correcção da acção do oceano e do homem não passam disso mesmo. Muitos mas engavetados.
Desapareceram da praia a prancha para o mergulho. Os parrôs implantados nas frondosas causuarinas nem sequer deixaram marcas. Do balneário só restam o entulho em forma de pedra. As raízes desventradas dos coqueiros são como que a prova de que ali se bebericava whisky com agua de lanho.
O barquito “pilotado” pelo velho Jenguesse já lá não está... para meu desgosto, uma vez que, para além da travessia (paga) para Kambala, com ele “navegavamos” entre os inúmeros canais e mangais até “aportar” em Muária, aldeia construída já depois da independência nacional.
O bar do Herculano Faria está numa lástima à espera que um diferendo qualquer, inexplicável, seja sanado. Ali perto funciona uma cabana feita com macuti
Reduzido devido à invasão das aguas do mar o terreno que utilizavamos para acampanar com tendas feitas de macuti e bambu, simplesmente já não existe.

Pemba: impressões após nove anos de ausência


“Prato da Baía”. Nome de uma barraca de comes e bebes. Construída com material local, está situada na que hoje chamam avenida 16 de junho, no meio entre o fim da estrada alcatroada e o que foi quartel dos fuzileiros navais portuguses.
A especialidade são os pratos tradionais, como o tocossado, acompanhado pela incontornável muatranca e o kitore (arroz e feijão nhemba moído) que podem ser servidos na sala de todos ou no quintal, debaixo da mangueira.
A casa, constituída por uma meia dúzia de beldades locais e por um “puto” de porte boxeur para desencorajar os atrevidos, é administrada pela Dona Abiba.
Recomendo a casa a todos quantos se orgulham de ser “bons garfos”, assim como mo recomendaram a mim, às médicas Benedita e Gisela, às duas Julietas (Dimande, minha companheira, e Mussanhane, minha colega), bem como ao Fernando Canana, muito patusco Delegado da RM.
Aviso: para um bom servicinho, à maneira, recomenda-se encomenda antecipadissíma. Contacto - Dona Abiba (82 724 9 722).

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


Para Mecufi ia para as férias escolares. Ficava alojado nos aposentos da maternidade local, onde a minha progenitora, Cristina, labutava e residia como parteira.
O quarto, minuscúlo, era meias-portas com a sala de partos e enfermaria para as parturientes. Testemunhei o “vir ao mundo” de muita criança, quar através dos “berros” das mães contorcendo-se com as dores de parto, quer com o som das pancadas nas nádegas das parturientes que a minha “velha” ferrava nelas, utilizando para tal uma ripa dos barris de vinho, para força-las a trazer para a vida o ser que se encontrava alojado no ventre.
Nas traseiras desta “primeira casa” de muitos, a velha Cristina, tinha um curral com mais de uma centena de cabritos sob a guarda de um macambúzio tão “panhonha” quanto àqueles animais.
Para suprir as necessidades em carnes para as farras na Cumilamba muitos daqueles caprinos foram por mim “roubados”, fazendo-me transportar numa velha Canter posta à disposição pelas “cozinheiras” Line Gaspar e Lena do Rosário para o servicinho. Elas estavam ao corrente do meu “ilícito”. Não estarei enganado se disser que entre dez e quinze cabritos “desapareceram” do curral de Mecufi directamente para as panelas das cozinhas da Cumilamba. A velha, quando se dava conta do “roubo” ia aos correios da administração de Mecufi, berrava comigo pelo telefone à manivela que ali funcionava.
A mangueira que se vê na imagem proporcionava uma fresca sombra para os almoços do fim de semana, onde, para além do guisado de cabrito, empaturravamo-nos de carne estufada de javali que o Chiquito Gonzaga, uma vez por semana, caçava nas languas à entrada de Mecufi e distribuía pelos poucos funcionários públicos: Administrador e Administrador-Adjunto, Escriturário e Mecânico, Enfermeiro e Parteira e o Professor.
Nesta mangueira, recordo-me, almoçaram e saborearam o famoso “mutchekele” (sumo de cajú fermentado) duas eminentes personalidades do judiciário nacional: Os Doutores Mário Mangaze, Presidente do TS e Sinai Nhatitima, Juíz-Conselheiro do TAdministrativo. Para além de outros amigos e colegas, como seja o Camilo de Sousa (cineasta), o Luís Alvarinho (já falecido), o Albano Mendes Narroromele (advogado) e o Renato Carrilho (Gunassi).

Mecufi: impressões após nove anos de ausência


A vila de Mecufi, 50 kilometros a sul de Pemba, foi iluminada durante vários anos por um gerador eléctrico a diesel, propriedade da administração. Os gastos no combustível eram tão elevados que a iluminação pública e nas residências dos funcionários e algumas poucas lojas era providenciada apenas entre as 18 e as 22 horas ou, aos fins de semana, até à meia noite.
Hoje, Mecufi, está ligada à Rede Nacional de Energia, possuindo uma pequena substação exactamente no local onde funcionava a velha central eléctrica.
No dia da inauguração do novo e moderno sistema escrevi a crónica que se pode ler a seguir. Foi transmitida no jornal sonoro da Rádio Moçambique.

"A minha crónica tem este título: “Aquinthuna Wonna Athu Elhaka Enhonda”, que, traduzido de Macua para português, significa qualquer coisa como “Não quero ver ninguém a comer apenas peixe seco”.
Ora vejamos: Num mundo em que há muito pouca coisa para nos alegrar e tanta tristeja para infernar ainda mais as nossas vidas, não é todos os dias que nos sentimos realmente satisfeitos e, por momentos, gozamos de alguma leveza de espírito interior, qual pássaro a rasgar o céu, como dono e senhor.
Hoje, 22, caro leitor, levantei-me do meu catre bem disposto: comigo mesmo, com os vizinhos, com o meu cão-guarda, com a irritante vendedeira de hortaliça, enfim, bem disposto com tudo e todos.
A boa disposição foi-me transmitida pelo meu colega e amigo, Óscar Limbombo de seu nome, a partir de uma pacata vila, situada a cinquenta quilómetros a sul da cidade de Pemba.
Óscar Limbombo, esse malabarista que mesmo sem uma antena das telefonia móvel ou fixa, lá conseguiu “despachar” para o Jornal da Manhã da Rádio Moçambique, uma notícia tão simples mas ao mesmo tempo tão gratificante como esta: o velho gerador de energia eléctrica de Mecufi passava a partir de hoje à reforma. Em seu lugar as gentes de aldeias como Muária, Sassalane, Nthakane, e se calhar, de Kambala, passam a ser iluminadas pela corrente eléctrica da nossa Hidroeléctrica de Cahora Bassa. Que Mecufi, enfim, entrava a partir de hoje, numa nova era do seu desenvolvimento. Quer dizer: os produtos marinhos, como peixe, camarão, lagosta, Mbare, capturados nas aguas do índico, já não iriam ser apenas fumados ou postos a secar por falta de meios frios, que agora se poderá pô-los a congelar e, assim, enviá-los para outros pontos da província e resto do país, para a sua comercialização. Aqui está o sentido do título desta minha crónica.
O Limbombo, como só ele, não se esqueceu de registar a voz de uma beldade que, tão inocentemente, sintetizou a alegria das gentes de Mecufi: “Agora vamos comprar geleiras e congeladores para pormos o nosso peixe”. Aí está o que é uma conquista que, aos olhos de gente que vive nas cidades, é tão corriqueira tanto quanto o ar que respiramos.
Uma conquista que me deixou bastante bem disposto, mas ao mesmo tempo com uma pontinha de tristeza. Porquê?, perguntar-se-á o leitor.
É o seguinte: quando ainda adolescente, e vivendo eu em Mecufi com irmãos e amigos: Roque, Luís, Adolfo, Sidónio, Germano, Quim e Melita Russo de Sá, a Cleid e o Meco, o gerador de energia que hoje vai a reforma, iluminou as nossas casas e permitia que, entre as 18 e as 22 horas, pudessemos ler e ouvir música e dançar. Não passavamos daquele limite, o combustível mesmo nessa altura (1970/73) já era ... caro.
O bonacheirão do Manuel, então encarregado de ligar e desligar este gerador que hoje vai a reforma em Mecufi, de quando em vez, lá adormecia e esquecia-se que estava na central eléctrica, o que nos valia mais uma ou duas horas de corrente eléctrica para nos divertirmos. Assim acontecia porque lhe corrompiamos com uma garrafinha de “Mwaken Mwalo”(*) da primeira. E uns "Mata Ratos" Kwekwero.
Não queria terminar esta minha crónica sem homenagear dois homens que marcaram de certa forma a infância de muitos das gentes de Mecufi. São eles, Genkwesse (barqueiro) e Chiquito (mecânico), zelesos funcionários da Administração desta vila que hoje, teve em Armando Guebuza não o Manuel da antiga Central Eléctrica, mas o accionador da energia eléctrica de Cabora Bassa rumo ao desenvolvimento de Mecufi, de Cabo Delgado, enfim desta Pérola do Índico. Akinathiwona, pá..., ou seja, “só visto...”."

(*) Mwaken Mwalo: "Arranca-lhe a faca" em ximácua

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pemba: impressões após nove anos de ausência




15/26 de outúbro: período da minha estada na cidade de Pemba, após nove anos de uma ausência involuntária. A curiosidade era tanta, alimentada pelas informações que, regularmente, me eram fornecidas por amigos e familiares que lá vivem ou que para lá se deslocavam: que a cidade cresceu muito; que o turismo imprimiu à urbe outros hábitos de vida; que as caras eram outras uma vez que as conhecidas, com o decorrer dos anos e na pior das hipóteses, desapareceram para sempre ou que imigraram para outras paragens.
A minha principal curiosidade, tal como muitos outros que conheceram Pemba noutros tempos, estava centrada no famoso Pemba Beach Hotel e nas transformações porque passara a praia do Wimbe. Enfim, queria testemunhar pessoalmente a “metamorfose” que se abateu sobre uma cidade e suas gentes que, confesso-o, exerceram uma grande influência sobre a minha pessoa. O que hoje sou (ou grande parte) foi moldado na capital da província de Cabo Delgado. Por isso mesmo posso me reservar o direito de pertencer de corpo e alma àquela (ainda) bonita cidade.

Pemba: impressões após nove anos de ausência




O Hotel Cabo Delgado, cuja construção e funcionamento acompenhei de perto (foi inaugurado em 1970), os prédios habitacionais como o do Cunha Alegre (onde vivi durante alguns anos), da ex-Manuntenção Militar, do Bispo (7 andares) e da Deta (Lam), só para citar alguns exemplos, terão servido para aquilatar o quão Pemba se transformou.
Confesso que não fiquei lá muito surpreendido com o que vi uma vez que, em comparação com o que nove anos tinha constatado, o estado de degradação permaneceu o mesmo, com a diferença de que, a zona alberga agora instituições que anteriormente não existiam.
Fiquei profundamente desolado, isso sim, foi com a transformação de dois importantes locais de lazer em barracas de comes e bebes (de prostituição também), de pequeno comércio e outros serviços. Estou a referir-me ao Clube Desportivo e ao Parque Infantil.
Julgo que os gestores da cidade cometeram um erro para o qual terão, no futuro, grandes dificuldades para corrígi-lo.
A cidade de Pemba perdeu duas importantes infra-estruturas que tiveram – e que poderiam continuar a ter – grande importancia na educação e formação da sua juventude: O Desportivo e o terreno adjacente, que serviu para a realização de bailes e outros convívios salutares e também para a prática de modalidades como o Futebol de Salão e o Basquetbol, está hoje entulhado de barracas onde imperam o vício e a má conduta; de venda de quinquilharias e electrodomésticos da mais baixa qualidade e, dizem, pessoas provenientes de outras latitudes mais a norte do país, a coberto do pequeno comércio, escondem actividades ilícitas como o tráfico de drogas.
Incompreensível para mim foi como foi possível a edilidade ter autorizado a transformação do pequeno zoo e da pequena biblioteca em instalação para a revelação de fotografias; como se deixou em estado de completo abandono o mini-cinema. Acrescento a este rol de apectos negativos, a transformação da Pastelaria “Triunfo” num estabelecimento de venda de ferragens. É uma aberração.
O intenso movimento que se regista nesta zona central da cidade de Pemba, longe de significar o desenvolvimento e consequente melhoria da vida da população, apenas reproduz fielmente o “modus vivendi” de outras urbes africanas: milhares e milhares de pessoas que deambulam de um lado para outro sem nenhuma ocupação e, pior, sem nenhuma perspectiva para o seu futuro. São jovens aos magotes que se movimentam sem elas próprias saberem para quê e para onde, vivendo o imediato de uns trocados que lhes satisfaz fugazmente as necessidades básicas, para no fim e num ciclo vicioso, regressarem à casa – se é que a tem – sem terem feito absolutamente nada para as suas vidas.

Pemba: impressões após nove anos de ausência




No decurso da minha estada na cidade de Pemba fiquei hospedado na casa do meu amigo Faruk Jamal, implantada mesmo à beira da praia da Maringanha, uns kilometros depois da emblemática praia do Wimbe.
Aqui, para além de ter desfrutado de condições principescas e de um acolhimento de irmandade dispensados pelo Faruk e sua companheira Shakila, passei alguns dias de absoluta calma, algo que há muito não experimentava.
A tranquilidade, o silêncio “rasgado” apenas pelo bater das ondas nas rochas madrugada adentro, os cajueiros com os frutos como há muito não via, os pescadores com as canoas a deslizarem suavemente no horizonte do mar alto, as raparigas e as mulheres inclinadas sobre si próprias a apanhar as ostras entre as pedras, as areais brancas, as algas de um verde reluzente, as grutas com galerias, o velho e solitário farol, tudo isso, teve o condão de um apaziguamento para comigo mesmo, permitindo-me o que na selva de Maputo não é possível: reflectir sobre o sentido da vida.
A praia do Wimbe conheceu, é verdade, um crescimento notável, destacando-se a existência de novas residências e locais de pasto e de entretenimento, para não falar do Casino pertença, ao que julgo, do meu amigo e antigo colega de escola Humberto Monteiro.
Fiquei agradavelmente surpreendido com as melhorias feitas no que foi outrora um pequeno bar, hoje Mar e Sol do Renato Chambarlain e da Eugénia Gaspar, local onde se pode degustar uns bons pratos de peixe pedra, do vermelho e do xaréu, para além, é claro, sorver, com toda a calma do mundo, umas bem geladinhas “2M” e Whisky com agua do lanho. O mesmo se pode dizer do “Nautilus”, embora aqui não deixe de torcer o nariz pelo facto de ter descurado a verdadeira função do local: o Clube Naútico, onde a criançada aprendia a canoagem, a natação e o salvamento em caso de afogamento.
O intenso movimento de pessoas que se regista aos fins de semana, sobretudo aos domingos, é algo que defrauda qualquer observador. No fundo, aquelas milhares de pessoas, sobretudo crianças de ambos os sexos, entulham a praia do Wimbe não para se refazerem da canseira da semana de trabalho ou escolar, juntamente com a família e amigos, mas sim para incomodar. São crianças que circulam por ali, à caça de algumas moedas ou, o que é pior, para surripiar algo como telemóveis e outros bens dos que, na realidade, ali se deslocam para descançar. Ao fim da tarde, aos milhares, aqueles “turistas”, pegam a estrada a pé de regresso às suas casas. Chamar a este fenómeno sinónimo de crescimento turístico da praia do Wimbe é simplesmente falso.

Pemba: impressões após nove anos de ausência


Já ouvira pelos relatos de amigos e da comunicação social: a ocupação desordenada dos espaços e os efeitos da erosão causados pela acção do homem. Não tinha a exacta dimensão dos estragos.
As imagens fotográficas que registei são elucidativas. Impressiona a construção de bairros em locais impróprios, como por exemplo, pelas bermas da estrada que liga a cidade ao aeroporto e nas ravinas, outrora lindissímas, que “beijam” a baía e visíveis a partir do cemitério municipal.
Para aquelas bandas existiam a não menos famosa praia da Sagal e aquela que nós, ainda crianças, chamavamos de “praia dos nús” porque nela banhavamo-nos completamente pelados.
Pelo que me informaram estes locais desapareceram ou foram simplesmente ocupados para outros fins, com todas as consequências nefastas sobre o eco-sistema.
Não tive tempo de visitar outros locais que conheci na minha meninice, como por exemplo, os bairros e praias de Paquitiquete, Cumissete, Cumilamba, “fuzileiros” e Inos. Pelo que me informaram, o cenário hoje é outro e ... confragedor. Pior: com "minas" humanas.
De relance vi o que me pareceu ser a “Meia Via” e a sua corcomida piscina que, ao que me pareceu, está a ruir devido aos efeitos do salitre.
Consolou-me o facto de a “febre” de constuir em todo o lado e de forma desordenada não ter atingido os centenários e portentosos imbondeiros: a maior parte continuam de pé. Espero que se continue a presevar aquela espécie de planta, deixando que as que ainda estão de pé, caiam por si mesma, como aquela que existia na Cumilamba até bem pouco tempo e que morreu devido à sua longevidade.

Pemba: impressões após nove anos de ausência




Mecufi, dista cinquenta quilometros da cidade de Pemba. Uma pacata vila implantada à beira do oceano, bonita pelas suas praias com mangais e conhecida até por não residentes em Cabo Delgado, pela sua cestaria em palha.
Ali viveu e trabalhou a minha proginitora como parteira e os meus irmãos mais novos, Sidónio e Germano. Nas férias escolares para ali ia descançar juntamente com os meus irmãos, Roque, Luís e o Adolfo e os nossos amigos, o Meco e a Claid e o Quim e a Melita e as irmãs Boene, entre outros. Mecufi é a terra de outros amigos como os irmãos Neves: Aguinaldo, Antuía, o Bernardino (já falecido) e o Adolfo. Mecufi, algumas vezes, acolheu alguns acampamentos de Escuteiros, nos quais estavam filiado, entre outros, eu próprio, o João Tique, o Chico Ávila, o Amaral “Russo”, etc.
Por algumas horas tive o prazer de visitar Mecufi. Já é iluminada pela Rede Nacional de Energia (HCB) em substituição do velho gerador que funcionava das 18 as 22 horas. Os edifícios públicos (Administração, Centro de Saúde e Residências dos funcionários) estão em bom estado de conservação, inluindo a pequena capela.
O mesmo não se pode dizer da praia e dos parrôs, balneário e da prancha: desapareceram, como também alguns coqueiros. A erosão, um problema antigo, não foi travado. O bar do Herculano Faria está simplesmente uma ruína. Em avançado estado de degradação estão as cantinas. Quanto à cestaria e as mobílias de kambala, essas, estão desprovidas da qualidade do antigamente. Por culpa da excessiva procura. O turismo tem destas, infelizmente.
O novo em Mecufi é a casa de pasto pertença do Assane, esse proprietário da Pensão Baía. Defronte da praia e com uma vista extraordinária, serve bons pratos de peixe e outros produtos marinhos.
Fiquei orgulhoso com as modestas mas aprazíveis casas (duas) do meu antigo colega e amigo, o João Lopes ou simplesmente Buda. Disse-me que não são para aluguer mas para usofruto pessoal e de amigos e antigos colegas. Força camarada.