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terça-feira, 17 de maio de 2011

13 de Maio no Santuário da Nossa Senhora de Fátima da Namaacha: religiosos e politicos pela preservação da paz e contra a violência

Promover um ambiente de paz no país tendo como pilares a tolerância, paciência, o diálogo, a ajuda mútua, compreensão e, sobretudo, o amor é a principal mensagem expressa por milhares de fiéis católicos que, no final da semana passada, peregrinaram ao Santuário da Nossa Senhora de Fátima, na Namaacha, na província do Maputo.

Os apelos constituem uma reacção implícita às ameaças de manifestações feitas pelo líder da Renamo, Afonso Dhlakama, por alegadamente o Governo ter rompido o diálogo que decorria entre as partes e onde o maior partido da oposição nacional pretendia renegociar o Acordo Geral de Paz, rubricado em Roma, em Outubro de 1994.

Os peregrinos aproveitaram a ocasião para afirmar que para solucionar qualquer desentendimento existem várias alternativas sem ter que, necessariamente, recorrer às manifestações ou violência.

Manter diálogo permanente – Arcebispo de Maputo, Dom Chimoio

O arcebispo de Maputo, Dom Francisco Chimoio, que falava durante a celebração eucarística, começou reafirmou que a Igreja sempre pactuou com a paz e concórdia e não com manifestações. Situou a importância da peregrinação na mensagem de paz que ela transporta, e pelo papel que os fiéis jogam na sua disseminação através do diálogo.

“Já tivemos a guerra dos 16 anos e ficou claro que só essa guerra regrediu o país. Duvido que ainda haja moçambicanos a querer voltar à guerra”, explicou.

Segundo Dom Chimoio, a carestia de vida resulta das crises internacionais de todo mundo globalizado, explicando ainda que “o que faz com que a gente sofra mais é a falta de uma distribuição equitativa da riqueza”.

Paz no lugar de manifestações – Joaquim Chissano

Para o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, a paz deve habitar nas almas dos fiéis, daí a necessidade de cada pessoa cultivar o espírito de paz interna e não apontar a ninguém pela própria intranquilidade.

“Temos que levar a paz para as nossas famílias e comunidades para se preservar a paz no nosso país e no mundo em geral”, disse o antigo estadista nacional, acrescentando que “não há ninguém que pode mobilizar um exército para a guerra quando todos querem viver em paz”.

Chissano explicou também que se deslocou ao Santuário da Namaacha para pedir à Virgem Maria e ao Beato João Paulo II para intercederem por todas as pessoas que insistem em promover diálogos extemporâneos para a situação de desenvolvimento que o país está a viver.

Promover a harmonia – Jorge Tinga, edil da Vila da Namaacha

O Presidente do município da vila da Namaacha, Jorge Tinga, disse que “nós deixamos a palavra de que as pessoas devem viver em harmonia e no amor porque as manifestações sempre provocam violência”.

Acrescentou que é através do diálogo que se podem ultrapassar as dificuldades e as diferenças que possam existir, mesmo aqueles que promovem manifestações podem ser afectados ou um outro membro da sua família.

“Temos que viver em paz, promover a cultura da paz que pode contribuir para o desenvolvimento de Moçambique”, afirmou o edil.

Jorge Tinga condenou também as ameaças de manifestações e realçou que, em democracia, o espaço para o diálogo está sempre presente.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Do Galão Se faz Um Brinquedo - O Exemplo de Um Menino Pobre da Namaacha (Moçambique)

Fábula

"Menino gordo comprou um balão
e assoprou
assoprou
assoprou com força o balão amarelo.

Menino gordo assoprou
assoprou
assoprou
o balão inchou
inchou
e rebentou!

Meninos magros apanharam os restos
e fizeram balõezinhos."

Por José Craveirinha

sábado, 20 de novembro de 2010

Cascatas da Namaacha: Saia para fora cá dentro

Muito se tem dito e comentado sobre as outrora famosas e aprazíveis cascatas da Namaacha. E não é para menos, quando hoje, mais do que nunca, os moçambicanos começam a (rea)ganhar o gosto de aproveitar os fins de semana para retemperar forças fora das cidades. No caso, de Maputo.

Leia mais aqui

No caso particular das Cascatas da Namaacha, o local, para além de se situar a pouco menos de cem kilométros da capital moçambicana, é também acessível a “todo o mundo” pelo simples facto de ser propriedade de todos. Não se tem que gastar seja o que fôr para lá se estar, para além das despesas da deslocação e dos acepipes e refrescantes.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Sexto Festival Nacional de Cultura em Chimoio: a celebração e exaltação da cultura moçambicana

(Imagem (EGMatos) captada sábado, 5, na vila da Namaacha, na fase de apuramento dos representantes da província de Maputo)

Chimoio, Julho/agosto de 2010. Será exactamente na capital da província central de Manica, de 27 de julho a 1 de agosto, que os fazedores das artes e cultura, uma vez mais, terão a oportunidade de celebrar e exaltar as ricas, diversificadas e milenares tradições culturais moçambicanas. É o VI Festival Nacional da Cultura, evento nacional que ocorre no Ano Internacional de Aproximação de Culturas, facto proclamado pela 62ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em reconhecimento do poder da cultura como factor de compreensão mútua, de paz e sobretudo de desenvolvimento sustentável.

O VI Festival Nacional de Cultura pretende-se que seja o momento mais alto de celebração e exaltação da cultura moçambicana, no objectivo de preservar, desenvolver as artes, a cultura e as tradições das diferentes comunidades e criar uma plataforma de interacção, intercâmbio e de divulgação do rico e diversificado património cultural do país.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Estrada da Namaacha: a "curva do açucar” do nosso chá da morte

Por Edmundo Galiza Matos

As muitas estradas que sulcam o país possuem a sua “curva da morte”, umas mais perigosas que outras, mas todas elas suficientemente traiçoeiras para meter respeito ao mais competente dos automobilistas.

Que me lembre, a primeira vez que transitei numa estrada com uma dessas curvas, foi no troço que vai de Diaca a Mueda, muito famosa mais por ter sido palco de emboscadas sangrentas dos guerrilheiros da Frelimo contra as colunas militares portuguesas, do que por capotamentos de veículos conduzidos por incautos.

Não é preciso ser muito atento para se perceber que grande parte dos acidentes de viação mais mortíferos em Moçambique, têm ocorrido nas curvas acentuadas, apesar de os sinais da sua proximidade serem facilmente notados.

A Estrada Nacional Número 2 (EN2), que vai da capital do país a vila fronteiriça da Namaacha, tem também a sua “curva da morte”, curiosamente plantada a escassos cento e cinquenta metros de um posto de controlo policial. Foi responsável pela morte de muitos automobilistas e pessoas que praticavam o contrabando de produtos ilegalemente importados da Swazilândia, fugitivas das autoridades. No local, para além de sulcos feitos no pavimento pelos veículos acidentados, brilham os cacos de vidro das garrafas de bebidas alcoólicas, restos de favos de ovos e plásticos das bacias e baldes de diversas cores, produtos que se espalhavam por ali cada vez que o carro do “mukherista” capotava. Morria gente e perdiam-se os produtos.

De há uns anos para cá, a “curva da morte” na EN2 não tem sido palco de mortes de importadores ilegais pela simples razão de que o contrabando foi em grande medida travado.

Hoje assiste-se, de tempos a tempos, ao capotamento de veículos de grande porte, transportando quase sempre açucar que o reino vizinho exporta através do porto de Maputo. Nos trés últimos casos de que tenho conhecimento, perderam-se consideráveis toneladas de açucar e ficaram feridas trés pessoas, curiosamente mulheres, que na fronteira haviam apanhado boleia.

No passado sábado, 9, um desses veículos pesados, capotou, espalhando a toda a largura uma quantidade considerável de açucar branco. A mulher que ia no veículo ficou gravemente ferida, correndo o risco de ver amputado um dos seus braços.

Os residentes nas imediações da “Curva do açucar”, pois é assim como agora se chama, são o que mais beneficiam cada vez que um daqueles camiões vira de pneus para o ar. Munidos de sacos de ráfia, baldes e bacias, panelas, capulanas e outros utensílios, toda a gente espera que as autoridades terminem a peritagem do sinistro para, quais abutres, se atirarem ao produto com uma voracidade tal que, em alguns minutos, o local deixa de ser branco para retomar a cor do alcatrão.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Cascatas da Namaacha: sete anos depois da seca

As chuvas intermitentes que se abateram sobre alguns distritos do sul de Moçambique, entre eles o da Namaacha, foram suficientes para reavivar o curso de água que alimenta aquelas cascatas, para delícia dos residentes da vila-sede do distrito e dos visitantes provenientes das cidades de Maputo e Matola.

Situadas a escassos quilométros das linhas de fronteira que separam Moçambique, África do Sul e Swazilândia, as cascatas da Namaacha são um potencial turístico adormecido que, ao que consta, vão poder beneficiar de um projecto de exploração. Irá ser lançado um concurso público para os interessados, sabendo-se desde já que as autoridades ligadas as estradas e pontes prontificaram-se a reabilitar a muito degrada estrada serpenteada que da acesso ao local.

As várias piscinas formadas entre as rochas a jusante das cascatas estão já a ser disputadas pela criançada, sob o olhar atento dos mais velhos. Jovens namorados, muitos deles estudantes de ferias, tomaram conta daquelas piscinas, sobretudo nos dias e horas de menor movimento.

As fotografias por mim registadas, ilustram a beleza do local. Está convidado a visitar as Cascatas da Namaacha.

terça-feira, 9 de junho de 2009

A falta de autoridade de que nos envergonharemos no futuro


(Estas fotografias foram captadas no "Sítio" Galiza Matos, na aldeia Germantine, sete quilométros da Vila da Namaacha, em maio deste ano. Na imagem de cima o fogo ataca o ananaseiro e na segunda devora uma latrina)

Por Edmundo Galiza Matos

O fenómeno das alterações climáticas e os seus efeitos a nível global já não constitui um assunto tratado por muitos como dizendo respeito apenas aos especialistas ou como sendo mais um dos modismos que, com o tempo, se eclipsará das suas pautas e das manchetes dos media. O mal – porque é disso que efectivamente se trata – começou a “mexer” com a vida de todos e, no caso de Moçambique, com a dos milhões de camponeses que têm nos recursos naturais o seu meio de sobrevivência.

Muito recentemente veio a público a informação que nos dava conta que, dada a sua localização geográfica, Moçambique é dos países que mais sofrerão de catástrofes naturais – ciclones, cheias, secas – como resultado dos estragos causados pela acção do homem sobre a natureza. Aliás, um estudioso português vaticina mesmo a possibilidade de o nosso pais vir a ser palco, nos próximos dez anos, de chuvas “diluvianas”, tão ou mais devastadoras que as que vivemos nos primeiros anos deste século, sobretudo na região sul. Com a diferença de que a “torneira” não estará aberta por dias, mas por algumas poucas horas, duas ou três vezes, com uma precipitação superior a um de um ano inteiro. Que Deus nos livre e nos guarde ...

O dilema com que nos deparamos é: se já nos demos conta do facto, de que estamos a espera para agir e assim, com base num programa tão vulgar como o de plantar uma árvore, evitar que o problema se agigante e ganhe contornos tais que já não haverá mais nada a fazer?

Que programa mais será necessário elaborar se muitos já existem, perguntarão os que estão ligados ao assunto. Outros, como eu, preocupados, retorquirão que se tais “planos de acção” estão definidos e em execução, algo então está a emperrar a sua visibilidade e os resultados práticos que deles se almejam atingir. Senão, não se compreende como é que as queimadas descontroladas continuem a devastar milhares e milhares de hectares de matas, danificando seriamente o ecossistema e atirando para a atmosféra o dióxido de carbono? E que dizer da subida da invasão das aguas do mar sobre as vilas de Mecufi, em Cabo Delgado e Machanga em Sofala, só para citar dois exemplos que testemunhei não faz um ano?

No rol dos estragos mais visíveis que as alterações climáticas estão a desencadear em Moçambique – e sempre com conhecimento de causa – não deixaria de apontar o caso da vila fronteiriça da Namaacha cujo clima era por muitos procurado e, até, recomendado para enfermos necessitados de “ares menos inócuos” como os que se vivem nos grandes aglomerados populacionais. Pergunte-se aos habituais peregrinos ao Santuário da Nossa Senhora da Namaacha se as temperaturas que se fizeram sentir durante a romaria deste ano de alguma forma se aproximaram das que se experimentavam em anos anteriores. Não, em absoluto. Por mentiroso passará aquele que se lembre de dizer que em tempos que a memória já não guarda os termómetros, entre Abril e Julho, desciam abaixo do zero e que a agua canalizada não jorrava das torneiras porque a tubagem era obstruída pelo líquido solidificado.

Desde 2000 que divido a minha vida entre a cidade da Matola e a vila da Namaacha e desde então acompanho o desenvolvimento inexorável das mutações no clima daquela região fronteiriça e a inacção das autoridades para estancar ou pelo menos minimizar os perniciosos atentados contra a natureza praticados pelo homem, nomeadamente, queimadas (muitas atiçadas por pura malvadez) e desmatação desenfreada para fabrico de carvão vegetal.

Como consequência óbvia deste estado de coisas temos que o saco de carvão passou de 60,00 meticais em 2001 para 200,00 meticais presentemente. Mais: o Vondo, um roedor que vive de tubérculos e o coelho, para não falar de outras espécies animais como a gazela, o cabrito do mato ou o javali, que os caçadores da zona vendiam ao desbarato aos que circulavam de Maputo até a fronteira com a Swazilândia, “pisgaram” para não se sabem onde. Pior do que isso são as cobras (Mamba e Surucucú) que, acoitadas pelas chamas do fogo posto, procuram abrigo em lugares mais seguros: junto das aldeias, para desespero dos seus habitantes. Uma manta ou uma almofada, mesmo que retalhadas, sempre são mais confortáveis que o inferno de uma vegetação a crepitar pela acção das chamas.

Mais dramática ainda é a gritante falta de agua, tanto para consumo humano quanto para a lavoura dos campos e beberagem do gado. A gravidade do problema é tal que, recordemo-nos, as autoridades se viram obrigadas nos primeiros meses deste ano a mobilizar camiões-cisternas para, a partir do rio Umbeluzi, satisfazer as necessidades de populações sedentas de vários pontos da Namaacha. Numa situação destas a agricultura familiar ressentiu-se e em consequência instalaram-se bolsas de fome que até hoje teimam em açoitar as populações da região.

Não é necessário ser-se especialista para concluir que esta situação tem a sua verdadeira origem na anormalidade com que as chuvas têm caído nos últimos anos. Que as queimadas descontroladas e a desmatação para o fabrico de combustíveis lenhosos simplesmente descontrolaram o ciclo natural das chuvas. Que na falta destas os lençóis freáticos minguaram de tal azar que, a título de exemplo, as famosas cascatas da Namaacha não passam hoje de rochas nuas e gretadas por um sol cada ano mais inclemente.

Chegados aqui, nada mais natural e legítimo do que se procurar saber onde estarão as autoridades, locais, distritais, provinciais e centrais, e que é feito dos planos de mitigação deste bicudo problema? Sem querer ser algum juiz em causa que não lhe diz respeito, atrevo-me porém a pensar que pouco ou quase nada está a ser feito para, em primeiro lugar, massificar toda a informação relativa a gravidade da situação e das causas que estão na base do imbróglio.

Mais grave ainda é a inacção e até a cumplicidade que se instalou entre os líderes e comunidades, elas próprias “agentes materiais do crime”, que, conhecedoras dos desmandos dos chamados carvoeiros e dos piromaníacos, simplesmente não agem. Para ser mais explícito, atrever-me-ei a afirmar que aqueles que deviam impor a ordem, desde a base ao topo, nada fazem, ao jeito de quem não quer meter o “bedelho” nos negócios dos outros para que ninguém se meta nos seus negócios. De outra forma, não se compreende como é que um ateador da queimada continue a viver tranquilamente ao lado do líder da sua comunidade ou como é que o controle dos fiscais florestais não se faz sentir, com todo o peso da sua autoridade, perante o desfile de centenas de camiões que entram diariamente nas cidades transportando lenha e carvão cujo corte e queima não foi autorizado.

Já lá vai o tempo em que a autoridade dos líderes se impunha, cujas decisões, sempre tomadas depois de ouvidas as sensibilidades locais, viravam lei e todos as cumpriam. Desconhecida é hoje a enorme influência que os aciãos exerciam sobre as acções das gerações mais novas. A falta de referências nas comunidades já se instalou e o resultado é a anarquia total, a tal ponto que não é segredo a prática de venda de terras a troco de uns míseros e efémeros milhares de meticais, uns tantos garrafões de “vinho para pretos”, capulanas e frangos. O Presidente da República, numa das presidências abertas na Inhaca, pronunciou-se sobre este fenómeno e as coisas continuam a desenrolar-se normalmente.

Está então visto que o que faz falta é o peso da autoridade, a complacência com a desordem que instalou, em consequência, a ideia segundo a qual o atropelo às leis é um “modus vivendi” ao alcance de todos, ricos e pobres.

Há que pôr cobro a este estado de coisas sob pena de a nossa falta de autoridade hoje nos desautorizar no futuro. Aí, acredite-se, será o nosso suicídio como pais. Tenho dito.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Santuário da Namaacha prepara-se para melhorar acolhimento dos peregrinos




Está em vias de de se melhorarem as condições para um acolhimento mais confortável e menos problemático para todos aqueles que se deslocarem ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, na vila fronteiriça da Namaacha.
Há dias tive a oportunidade de testemunhar (e registar em imagem) alguns trabalhos de reabilitação das suas infraestruturas, para além de inovações de pequena monta.
A pintura geral externa do edifício e a montagem de novos sanitários público para servir aos peregrinos são algumas das beneficiações que já são uma realidade.
Já é notícia a construção de uma basílica no terreno do santuário, estrutura que vai permitir que cerca de cinco mil pessoas estejam sentadas, o que dará um outro ímpeto às orações.
O antigo Instituto João de Deus, uma completa ruína deverá ser reabilitado para ser a futura pousada dos peregrinos.

Namaacha: a pedra ao serviço da arte de construir


Texto/Fotos: Edmundo Galiza Matos
Os interessados pelas mais diversas formas de arquitectura moçambicana, antiga e actual, não ficarão indiferentes à forma como a pedra foi e continua a ser artistiscamente aproveitada em diversas construções implatadas na Vila da Namaacha.
Provavelmente muitos que por ali transitam em viajem para a vizinha Swazilândia não se dão conta da extraordinária beleza de alguns edifícios da vila implantados no seu interior, beleza conseguida com recurso à um material de construção, a pedra, bastante abudante e, por isso mesmo, barata.
Existem edifícios que são autênticas obras de arte, muitos deles desenhados, é verdade, por arquitectos formados, mas edificados por pedreiros que nunca se sentaram em nenhum banco de uma Escola de Artes e Ofícios.
Muitos desses edifícios estão hoje em ruínas não sabe muito bem porquê mas não resiste em registar para câmara algumas imagens que ilustram o quão simples, e por isso mesmo, belos foram quando ainda habitados.
Não raras vezes testemunhei o mau uso que alguns residentes da vila dão a algumas dessas obras de arte, herdadas em decorrência do 24 de julho de 1976. Outros, perante ofertas feitas por pessoas com posses e interessadas em ter uma casa de campo, não resistiram em passá-las, o que levou a que se evitasse que a sua progressiva degração.
Algumas dessas edificações ainda estão a tempo de serem recuperados. Outros, nem por isso. Este será certamente um dos principais desafios para as autoridades locais a sairem da primeira eleição autáquica de novembro próximo.

Namaacha: Uma infância marcada pela escassez de agua




Texto/Fotos: Edmundo Galiza Matos
Recordo-me que, ainda petiz, o acarretamento da agua num riacho na aldeia dos meus avôs no interior da província de Inhambane, constituir uma actividade não só necessária, como também de pretexo para as nossas brincadeiras. Socorriamo-nos então de um imponente burro para puxar rio acima o barril de madeira de pinho cheio do precioso líquido até uma cisterna na pequena casa de alvenaria onde viviamos.
Ao fim de umas tantas carradas, decliciavamo-nos com o mergulhar na agua fresca e cristalina do riacho, enquanto as nossas modestas roupas estendidas no capim ou nos arbustos secavam.
Portanto, a agua nunca foi um problema para a comunidade onde viviamos e penso que o mesmo se passava um pouco por este país fora.
Hoje, por motivos bastante conhecidos – mudanças climáticas devido à emissão de gases que danificam o efeito estufa – Moçambique vive o drama de ter agua em demasia em determinadas regiões e escassa em outras.
O sul do país, mais precisamente a província de Maputo, debate-se com esta realidade: um petiz que vai crescer com a triste realidade de ter que testemunhar o esforço da mãe para ter alguns litros de agua para as necessidades do dia a dia. A imagem acima é disso ilustrativa.
Pode-se divisar o esforço desta mulher a tirar do poço a agua a partir de uma lata presa a uma corda e o que foi outrora uma bomba manual para a sucção do líquido, artefacto agora sem outra serventia do que um improvisado encosto ao filho sonolento debaixo do sol abrasador nas imediações da Igreja Católica da Namaacha.
Esclareça-se que a bomba manual nem sequer está avariada. Acontece que a agua está a um nível bastante profundo porque o lençol freático reduziu devido a anos de falta de chuva para a necessária reposição.
Como esta, muitas outras imagens podem ser colhidas um pouco por toda aquela vila fronteiriça.

O país está a arder: o caso da Namaacha


Texto/Fotos: Edmundo Galiza Matos
A prática das queimadas das matas, seja para fins agrícolas ou para a caça de animais de pequeno porte, sempre foi usada pelas populações camponesas como meio para a obtenção da sua alimentação. Geralmente, elas acontecem no período intermédio entre a época seca e a da chuva. E de forma controlada através da utilização dos chamados quebra-fogos e em dias sem vento para evitar a sua propagação para além dos limites.
Durante vários anos, as autoridades administrativas e agrícolas do país tinham como tarefa, entre outras, o controle da prática, mantendo sempre os camponeses informados dos limites entre os benefícios do fogo sobre a vegetação e a sua nocividade quando usado para além do necessário.
Não sei muito bem porque razão esta colaboração perdeu a sua força, a verdade porém é que, não só os camponeses já não respeitam as regras, como, ao que tudo indica, “infiltrou-se” entre eles um elemento estranho: individuos que, não sei se por “atracção” pelas labaredas, atiçam fogo à vegetação seca, escolhendo as noites ventosas para a sua actividade criminosa.
Os prejuízos são por demais conhecidos mas terão sido demasiado evidentes quando em agosto/setembro deste ano as queimadas vitimaram mortalmente mais de duas dezenas de pessoas e destruiram casas e celeiros de camponeses no centro do país, com particular incidência na província de Manica.
No início desta década, quando por opção escolhi a vila fronteiriça da Namaacha para construir o meu “Sítio”, deliciavam-me com a vegetação verdejante que se observava ao longo da Estrada Nacional N. 2 entre a cidade de Maputo e a fronteira da Swazilândia. Recordo-me que não raras vezes comprava dos camponeses, perfilados na berma da estrada, maçaroca e amendoim fresco quase todo o ano e amigos meus, aos fins de semana, excursionavam por aquela região para comprarem o Vondo, uma espécie de ratazana cuja carne, ao que dizem, tem o mesmo gosto a do porco.
A uma determinada altura este ambiente começa a desvanecer-se por culpa das queimadas realizadas irracionalmente pelos próprios camponeses, o que me levou a lançar um “grito de alerta” dirigido ao então Ministro da Agricultura, Hélder Muteia. Lembro-me de, numa noite “ensaguentada” por chamas gigantes, a um/dois quilometros de Mafuiane, ter ligado para o Ministro Muteia informando-o do “infernal” mas espectácular espectáculo que então se deparava, rogando que chamasse a atenção dos responsáveis pela fauna e flora para aquele desastre ecológico. “Namaacha está a arder”, gritei-lhe do telefone móvel. E não estava a exagerar.
Hoje, mais ou menos seis anos depois deste episódio, não só desapareceu a maçaroca e o amendoim e o Vondo, como as queimadas, por inoperância das autoridades, agudizaram-se, sem que alguém mexe uma palha para evitar mais esta calamidade - porque disso se trata – como os seus autores, mesmo perfeitamente identificados, continuam a cometer este crime contra a natureza.
As imagens falam por si. Foram registadas um pouco antes de Mandevo, no chamado Km 60, uma zona onde, anos atrás, diz-se, foi um excelente habitat de gazelas, coelhos, galinhas do mato, vondo e até cabritos do mato.
É caso para nos indagarmo-nos: É este legado de um país desertificado que queremos deixar para as gerações vindouras?
Acredito que não. Mas é preciso agir, sob pena de, quando sentirmos na pele a queimadura das acções criminosas praticadas irracionalmente por todos sem excepção, acordarmos para um desastre sem a mínima possibilidade de mitigar.