RÁDIO MOÇAMBIQUE

RÁDIO MOÇAMBIQUE
CLICA NA IMAGEM. NOTÍCIAS ACTUAIS DO PAÍS
Mostrar mensagens com a etiqueta Mia Couto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Mia Couto. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Mia Couto: Porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento?

“O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demónios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, servindo como agentes da segurança privada das almas. Nem sempre aqueles que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estava mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território.”

Leia mais aqui

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A reabilitação da esperança – Mia Couto

Por Paulo Miguez (*)

Mia Couto, escritor moçambicano e um dos expoentes contemporâneos da literatura de língua portuguesa passou mais uma vez pela Bahia. Esteve entre nós, na primeira semana de agosto, marcando presença no VII ENECULT o cada vez mais importante Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura promovido pelo Centro de Estudos Multidisciplinares em Cultura da Universidade Federal da Bahia e que congrega estudiosos de diversos campos do conhecimento, do Brasil e do exterior, interessados nas temáticas culturais. Além das muitas entrevistas que concedeu, foi o palestrante do Conversas Plugadas, projecto da Secretaria de Cultura do Estado que acabou, nesta sua edição, compondo a programação de encerramento do XXI Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais, este ano realizado em

Salvador.

No ENECULT, Mia, com um texto que baptizou com título "O homem que casou com a Bahia

", tratou da relação entre cultura e desenvolvimento. "Culturas e desenvolvimentos", consertou ele, afirmando a sua compreensão de que ambas as palavras só fazem sentido se pronunciadas no plural - palavras que, como "cultura", são tão complexas que, relatou, são intraduzíveis em muitas das mais de duas dezenas de línguas nacionais faladas em Moçambique.

No Conversas Plugadas, Mia deliciou-nos com a conferência "Um Mar Vivo: como Jorge é Amado em África", propondo uma leitura africana da obra de Jorge Amado, do impacto da obra do escritor baiano na literatura africana de língua portuguesa - feliz coincidência, a fala de Mia Couto aconteceu exactamente no dia 10 de agosto, data em que Jorge Amado completaria 99 anos.

Em ambas as conferências, uma fala mansa, cuidadosa, preciosamente poética. Em ambas, Mia disse-nos da sua familiaridade com a cena brasileira, da sensação de sentir-se em casa estando na Bahia

. Mas disse-nos, especialmente do que considera ser uma tarefa fundamental dos tempos que correm, a reabilitação da esperança.

Esperança. A ela tem se dedicado Mia no seu ofício de escritor - e de biólogo. Mia recusa-se a ser um escritor de tempo integral. Continua a trabalhar como

biólogo, na área da ecologia. Aliás, um casamento mais que perfeito. O biólogo ecologista, preocupado com as questões ambientais, e o escritor, atento ao fascinante e diverso universo das culturas moçambicanas que servem de alimento seminal para as suas palavras-poema.

Esperança de que a compreensão da cultura ultrapasse os factos visíveis e alcance os gestos silenciosos que dão sentido à vida das gentes.

Esperança, a mesma esperança que os livros de Jorge Amado despertaram nos escritores africanos de língua portuguesa que, em luta contra o colonialismo português em África, aprenderam a ver em Jorge a possibilidade de fazer do português uma língua também deles, africanos.

Vivi em Moçambique durante 11 anos.

Entre 1982 e 1993. Lá conheci Mia. Lá, ao longo destes 11 anos, quase todos marcados por uma guerra odiosa, tive o privilégio de integrar, com Mia e com muitos outros, moçambicanos e estrangeiros "cafrealizados" como eu, uma geração que bem pode ser chamada de "geração esperança".

Ficaram para trás as ilusões da revolução que amávamos tanto.

Nesse sentido, somos hoje, esta geração, tomando de empréstimo a expressão com que designávamos os guerrilheiros que fizeram a Luta Armada de Libertação Nacional em Moçambique, a geração dos (novos) "velhos combatentes". Mas não abandonamos a mania de sonhar, de ter esperança.

As palavras de Mia, os seus livros, garantem-nos, tanto lá quanto aqui, cestos de sonhos, rios de esperança.

Khanimambo (obrigado) Mia.

Breve nota biográfica: M

ia Couto nasceu António Emilio Leite Couto a 5 de julho de 1955 na cidade da Beira, Província de Sofala, em Moçambique. Filho de uma família de emigrantes portugueses, Mia publicou os primeiros poemas no "Notícias da Beira", com 14 anos. Em 1972, deixou a Beira e partiu para Lourenço Marques, atual Maputo, para estudar Medicina. Com a independência de Moçambique, em 1975, ingressou no jornalismo. Dirigiu a Agência de Informação de Moçambique (AIM) e, posteriormente, a revista semanal "Tempo" e o jornal "Notícias". Tendo abandonado os estudos de medicina, formou-se em 1985 em Biologia pela Universidade Eduardo Mondlane. Durante a década de 1980 publicou seus primeiros trabalhos. "Raiz de Orvalho" (1983), "Vozes anoitecidas" (1986) e "Cada Homem é uma Raça" (1990), o primeiro, um livro de poesias, os dois outros, de contos. Em 1992, publicou seu primeiro romance, "Terra Sonâmbula". Na sequência publica "Estórias Abensonhadas" (1994), "A Varanda do Frangipani" (1996), "Vinte e Zinco" (1999), "Contos do Nascer da Terra" (1997), "Mar me quer" (2000), "Na Berma de Nenhuma Estrada e outros contos" (2001), "O Gato e o Escuro" (2001), "O Último Voo do Flamingo" (2000), "Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra" (2002), "O Fio das Missangas" (2004). Tendo ganho vários prêmios literários, Mia Couto é hoje um dos escritores africanos mais traduzidos e suas obras estão publicadas em mais de 20 países. No Brasil, acaba de lançar um livro de ensaios intitulado "E se Obama fosse africano? e outras interinvenções" (Companhia das Letras, 2011).

(*) Paulo Miguez é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Atualmente é professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA e coordena o Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (UFBA). Foi assessor do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil e Secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura entre 2003 e 2005.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Entrevista: Para o escritor Mia Couto, o Brasil é um tio rico, mas distante de Moçambique


Um tio rico, mas distante culturalmente. É assim que Moçambique enxerga o Brasil, na opinião do escritor Mia Couto.

Aos 56 anos, o autor de "Terras Sonâmbulas" (considerado um dos 12 melhores livros africanos do século 20), "O Voo do Flamingo" e outras 24 obras retorna ao País (Brasil) para participar em alguns eventos. Nesta quarta-feira (dia 3), dirigiu uma aula-palestra para alunos do 3º ano do ensino médio do colégio São Luiz, em São Paulo.

"Já me sinto um morto!" Com um misto de brincadeira e espanto, Mia Couto fala ao iG (site brasileiro) sobre ter os seus livros lidos em escolas brasileiras, que normalmente reservam os seus currículos para os cânones da literatura. "Fico feliz que esses livros possam chegar a pessoas mais novas. Mas, por outro lado, o que deveria ser feito são aulas de literatura, de expressão criativa, como suporte para o ensino de uma língua. Quando estudei os autores, eu os odiava. Era algo frio, pouco literário, não era um convite a ler e a escrever."

Couto diz que perdeu a conta de quantas vezes veio ao Brasil. Mas, questionado sobre o número de livrarias existentes no seu país, não titubeia: "Dá para contar nos dedos de uma das mãos".

Não é de espantar que Moçambique tenha tão poucas livrarias e que Mia Couto seja (muito) mais lido em Portugal e no Brasil do que na sua terra natal.

A língua oficial de Moçambique é o português, mas fala-se pelo menos outras 20 neste país de 22 milhões de habitantes que vive de exportações do camarão, algodão e cajú. No relatório do Índice de Desenvolvimento Humano de 2010 da ONU, Moçambique aparece na 165ª posição, à frente apenas de Burundi, Níger, República Democrática do Congo e Zimbabwe (o Brasil está em 73º).

"Mas a situação está a melhor", diz o escritor, sobre o país na costa leste de África que foi colônia de Portugal até 1975 e que logo após a independência sofreu com uma violenta guerra civil que durou até 1992. Moçambique sabe o que é ser democracia há apenas 19 anos. "A democracia é um regime que não pode ser imposto, então há uma cultura democrática que está a nascer nas cidades. Isso não pode ser induzido artificialmente."

Com a devida vênia, transcrevemos a entrevista que Mia Couto concedeu ao iG.

iG: Quando foi a primeira vez que o sr. veio ao Brasil?
Mia Couto:
Foi em 1987, em função do livro "Sonha Mamana África", uma antologia de autores africanos feita por Cremilda de Araújo Medina. Mas quando cheguei foi como se já tivesse cá estado várias vezes. O Brasil é um território imaginário que povoou a minha infância. Então quando cheguei parecia um reencontro.

iG: Após tantos livros, a vontade de escrever, a intensidade ainda são as mesmas?
Mia Couto:
Ainda. O que mudou foi a relação não tão adolescente de, por exemplo, querer dizer tudo num só livro. Ficou mais madura a relação com a escrita, de não querer fazer bonito. Agora ela acontece mais natural. Não há uma busca imediata pelo bonito. O resto é a mesma coisa. Ajuda-me a não pensar na idade que eu tenho.

iG: Sente diferença em como os seus livros são recebidos em Moçambique, em Portugal e no Brasil?
Mia Couto:
Sim, há algumas diferenças, mas no geral o que conta é a história, é a relação das pessoas com a possibilidade de se evadir, de encontar na literatura um convite para repensar o mundo, para reinventar o mundo. Isso é comum. O que muitas vezes percebo é um certo reencontro com uma África que foi idealizada como um lugar de redenção por alguns brasileiros. Reencontrar em África tudo aquilo que foi perdido e que se acumula como frustração do seu dia a dia. Essa África não existe.

iG: O sr. já disse que a sua geração sofreu influências de Guimarães Rosa, de Jorge Amado, mas que, hoje, os africanos conhecem pouco ou nada do Brasil. Estamos culturalmente afastados?
Mia Couto:
Sem dúvida. Há um distanciamento. Há proximidades, que manifestam-se em áreas que não correspondem ao que o Brasil realmente é. Por exemplo, na área da novela, o Brasil está presente como nunca esteve. É pela via das novelas que os moçambicanos conhecem o Brasil. Mas é apenas uma ideia do Brasil. Na literatura houve um empobrecimento, os africanos não sabem o que está a acontecer no Brasil, sobretudo em relação aos novos autores.

iG: O Brasil actualmente é tido como uma força emergente no mundo. Isso é bom ou ruim para Moçambique?
Mia Couto:
É principalmente bom. Um membro da nossa família que tem esse peso no mundo, com as suas políticas externas, pode ser uma voz alternativa. É como ter um tio rico: encontramos nisso uma possibilidade de estarmos presentes no mundo, por via do outro.

iG: Como o senhor situa a narrativa dos seus livros com a tradição oral africana e moçambicana?
Mia Couto:
Não faço como uma missão, não me atribuo essa bandeira. Acontece porque não há outra maneira. Para falar daquilo que quero falar, tem de ser daquela maneira. É algo dominante.

iG: A identidade e o deslocamento permeiam os seus livros. Isso é fruto do contexto moçambicano ou africano?
Mia Couto:
De um contexto mundial. Hoje há uma opção pela busca de identidade, embora em África se manifeste de maneira mais dramática. Preocupa-se porque normalmente essa procura é objecto de manipulação. De repente é uma identidade que se funde na ilusão de haver uma pureza, de sermos nós próprios sem sermos os outros. A identidade só existe no plural.

iG: Há críticos que dizem que a sua literatura é mais intelectual do que física, que trata menos da miséria africana e mais de questões existenciais. O que acha disso?
Mia Couto:
Não aceito essas críticas, não é verdade. Esse lado mais físico, povoado de gente real está presente nos meus livros. A miséria está presente. Abordo de uma forma muito mais sensorial do que intelectualizada.

iG: O sr. não encerra os seus livros com um desfecho impactante, com alguma surpresa. Eles vão terminando aos poucos. Qual é a razão?
Mia Couto:
O final tem de ser construído pelo leitor. É um final em aberto porque a própria vida é assim, não?

iG: Moçambique foi colônia de Portugal até 1975, depois passou por uma violenta guerra civil e tornou-se uma democracia há menos de duas décadas. Como o sr. define a actual situação do país?
Mia Couto:
Está a melhorar. O que foi feito é um esforço enorme para se abrir ao mundo, às tendências do mundo. Um país com exercício democrático verdadeiro. A democracia é um regime que não pode ser imposto, então há uma cultura democrática que está a nascer nas cidades. Isso não pode ser induzido artificialmente.

Leia mais:

+ Seria desastre nacional se alguma vez Afonso Dhlakama chegasse ao poder em Moçambique

+ Manifestações: “Frelimo e a cúpula aceitaram que o problema tem a ver com moral”, afirma escritor Mia Couto

+ Moçambique – 30 anos de Independência: no passado, o futuro era melhor?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Mia Couto: seria desastre nacional se alguma vez Afonso Dlakhama chegasse ao poder em Moçambique

O escritor Mia Couto analisa o recente processo eleitoral em Moçambique e os caminhos trilhados pela jovem nação africana até a conquista de um Estado democrático pleno

O escritor e biólogo moçambicano Mia Couto vê com cepticismo as possibilidades de o actual processo eleitoral no seu país induzir o renascimento das utopias que animaram o processo revolucionário moçambicano na década de 1970 e a consolidação de um projecto de nação que ele ajudou a construir. No entanto, não deixa de ressaltar o papel fundamental da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) – actual partido governista e elementar no processo de redemocratização como grupo revolucionário – na estabilidade do país e na continuidade do processo de construção nacional.

Leia mais aqui: www.rm.co.mz

"Seria um desastre nacional se alguma vez Afonso Dlakhama, da Renamo, chegasse ao poder. Já Deviz Simango, jovem engenheiro que saiu em ruptura com a Renamo e que ainda é prefeito da cidade da Beira (a segunda cidade de Moçambique) fez um bom trabalho em prol da cidade. Mas é preciso dizer que a oposição é algo que está em processo de criação. E é urgente que se crie uma oposição capaz, uma oposição construtora de alternativas e que abra caminhos e ideias novas." (Mia Couto)

quarta-feira, 10 de março de 2010

Livro “Pátio das Sombras”: a promoção dos hábitos de leitura a partir de histórias moçambicanas

É lançado esta quinta-feira o livro “Pátio das Sombras”, uma obra que conta com textos do escritor Mia Couto e ilustrações do pintor Malangatana.

O acto do lançamento terá lugar no Instituto Camões, em Maputo, com a presença dos dois autores.

Esta obra inaugura a colecção “Contos e Histórias de Moçambique”, acção que está sob a responsabilidade da Escola Portuguesa de Moçambique, em parceria com uma fundação espanhola.

O projecto editorial e educativo, que visa a promoção de hábitos de leitura e da própria portuguesa, a partir das tradições moçambicanas, compreende a recolha de histórias da tradição oral de Moçambique e a sua recriação e ilustração por escritores e artistas plásticos até à sua publicação em livro.

Estes já estão a ser gratuitamente distribuídos por escolas moçambicanas para a sua exploração pedagógica pelos professores da disciplina de Português.

Estes, como prevê, o próprio projecto, também já começaram a receber formação adequada no âmbito da leitura e escrita a partir de histórias, que está a ser ministrada.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Obra de Mia Couto será debatida num congresso na Bélgica


Um congresso internacional sobre a obra de Mia Couto vai decorrer na Antuérpia, Bélgica, de 23 a 25 de Março, organizado pelo Instituto Superior de Tradutores e Intérpretes da Bélgica com o apoio do Instituto Camões.

Comunicações de especialistas de diversas universidades da Europa e América serão apresentadas, incluindo da Universidade da Sorbone de Paris, da Universidade de Caen da Normandia (França), a Universidade de Bucareste (Roménia), Universidade de Utrech (Holanda), a Universidade Koln (Alemanha), Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), Universidade de Berkeley (Inglaterra), bem como as universidades portuguesas de Viseu, Lisboa, Porto e Trás-os-Montes.

No final do primeiro dia, inteiramente dedicado à análise da obra do escritor moçambicano, será exibido o filme "Terra Sonâmbula" que venceu diversos prémios internacionais de cinema.

Mia Couto vai estar presente no colóquio.

A primeira do evento será dedicada à tradução da obra de Mia Couto. "Serão escolhidos dois livros entre a obra do autor e serão convidados alguns dos tradutores destes textos, para participarem em mesas redondas", segundo uma nota dos organizadores.

A segunda vertente "será centrada na análise da obra do autor". Nessa parte, pretende-se abordar especificamente os temas como o trabalho/o jogo com a linguagem na obra de Mia Couto, bem como o seu processo narrativo, a literatura e a constituição de uma identidade (linguística, cultural e/ou política) moçambicana e a tradução, a divulgação e a internacionalização da obra do escritor moçambicano.

Além das comunicações seleccionadas, estão também previstas palestras por Mia Couto, Ana Mafalda Leite e Alberto Carvalho.

Os organizadores lançam um apelo à apresentação de comunicações numa das áreas temáticas do colóquio, devendo a intenção de apresentar uma comunicação acompanhada de um título provisório ser apresentada até 1 de Novembro de 2009.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Mia Couto – Homenageado no Brasil, afirma que reforma ortográfica não faz sentido

Antes da unificação da grafia da língua portuguesa nos países africanos que falam oficialmente o português, é preciso discutir questões do âmbito social e político, defende o escritor moçambicano Mia Couto para quem a reforma ortográfica não faz sentido.

"Eu não tenho uma posição militante em relação a isso, não dou essa importância. Reconheço que pode haver algumas razões para se fazer uma reforma ortográfica. Eu sou crítico ao discurso que foi feito para justificar o acordo para ficarmos mais próximos, para nos entendermos melhor, isso é mesmo mentira", disse.

Para Mia Couto, os falantes da língua portuguesa já se entendem, "é mentira que tenhamos nos afastado do ponto de vista cultural do conhecimento". E complementa que "nós já nos entendemos, eu sempre li brasileiros sem dificuldade nenhuma".

De acordo com o sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras que está no Rio de Janeiro para o Festival de Teatro da Língua Portuguesa, o que afasta o mundo lusófono são as "opções políticas e estratégias que as elites desses países têm". Se estas questões não forem discutidas, segundo disse à Lusa o escritor moçambicano, "vamos criar um mal entendido pensando que automaticamente, por uma razão técnica, nós vamos chegar a uma maior proximidade".

Mia Couto diz sentir prazer em ler autores brasileiros com "elementos gráficos diferentes para que essa diversidade esteja presente". E refere não ter "medo de uma língua que tenha diversidades com a tradução de marcas culturais e geográficas, não temos que ter medo disso".

Ele afirma-se resistente ao Acordo Ortográfico que no Brasil vigora desde 1 de Janeiro deste ano. Para o escritor, os países pobres de língua portuguesa precisam "resolver uma série de outras coisas antes (da reforma) que não sei se estão a ser discutidas".

"Entendo que em Portugal este assunto foi tido com muito mais nervos e componentes psicológicos" e contrapôs que em Moçambique, um país com mais de 25 línguas africanas, o português é tido como segunda língua. "As pessoas lá são quase sempre multilíngues, pois falam duas ou três línguas africanas."

Com seu livro recém lançado no Brasil "Antes de nascer o mundo", cujo título em Portugal e em Moçambique é "Jesusalém", Mia Couto considera-se antes de tudo um poeta e diz que o que lhe fascina na prosa é o "poder fazer a criação poética, não só em cima da linguagem, mas em cima da narrativa".

"Para mim a poesia não é só um gênero literário, é uma maneira de eu ver o mundo, de eu sentir o mundo", salientou ao destacar que a literatura ainda pode causar encantamento e criar utopias.

"A literatura pode mostrar o gosto de se poder sonhar e se poder construir outros dias. Não é o escritor que desenha um caminho para a saída, mas ele mostra que há um prazer em encontrar um mundo para além desse", declarou.

Após 16 anos de guerra civil com um saldo de um milhão de mortos, Mia Couto se diz céptico, mas que a literatura pode ajudar a cicatrizar as feridas.

"Eu faço arte, literatura, e sou movido por este desejo de ter um compromisso ético de criar uma sociedade nova em Moçambique, um mundo mais justo com mais verdade", explicou.

Mia Couto é homenageado na abertura de Festival de Teatro no Brasil

O escritor moçambicano Mia Couto foi o homenageado no Festival de Teatro da Língua Portuguesa (Festlip) que decorre até dia 12, no Rio de Janeiro, e leva ao Brasil onze espectáculos teatrais de seis países lusófonos.

"Estamos a consolidar uma parte da cultura de nossa língua portuguesa. O Mia Couto é homenageado pelo que ele representa e pelo incentivo que dá aos grupos de teatro. É uma pessoa que o teatro de língua portuguesa tem se alimentado", afirmou na noite de abertura do festival a idealizadora do evento, a actriz e produtora Tânia Pires.

Esta segunda edição do festival que já integra o calendário cultural carioca reúne 80 profissionais de teatro de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Portugal.

Cada país será representado por duas companhias, a excepção de Guiné-Bissau, que faz sua estreia no Festlip com montagem do Grupo do Teatro do Oprimido, criado no país pelo recém-falecido dramaturgo Augusto Boal.

Na programação, além da palestra de Mia Couto cujo tema será a "metamorfose da literatura para o teatro", será encenado pelo Grupo Tijac, de Moçambique, o espectáculo "Mar me Quer", baseado na obra de sua autoria.

Mia Couto disse ter tido dúvidas se aceitava o convite para o festival e afirmou ter pensado em declinar e dedicou a homenagem a todos os "heróis fazedores de teatro".

O escritor disse que na reprodução das suas obras literárias para o teatro e para o cinema, há uma "tentação de que aquilo que fizemos pelo menos não morra".

"Significa que há um diálogo entre linguagens diferentes. Transplantar significa exactamente semear no outro terreno e o que vai nascer será uma outra coisa, eu noto que meu trabalho serviu de inspiração, de ponto de partida", afirmou, ao referir que procura não ter a expectativa de que o que está a ser feito possa ser um "prolongamento" de sua obra.

Nascido em Beira, Moçambique, em 1955, Mia Couto é sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Além de jornalista, ex-militante político e biólogo, Mia Couto é considerado um dos grandes escritores contemporâneos africanos de literatura de expressão portuguesa.

Entre seus prémios, o moçambicano foi distinguido pelo conjunto da sua obra com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e também recebeu o Prémio União Latina de Literaturas Românicas em 2007.

A expectativa para este ano é de que cerca de 18 mil pessoas circulem pelas eventos culturais e assistam aos espectáculos teatrais, todos com entrada franca.

O segundo Festlip conta com apoio das embaixadas de Angola, Moçambique, Cabo Verde, Portugal, Instituto Camões, Ministério da Cultura, Fundação Palmares e Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Mia Couto no Brasil para lançar o livro “Antes do Sol Nascer”, “Jerusalém” em Moçambique

O escritor, jornalista e dramaturgo moçambicano Mia Couto está desde quinta-feira no Brasil - primeiro em São Paulo para lançar o seu novo romance -, e depois no Rio de Janeiro para ser homenageado.

O livro, que é lançado simultaneamente em vários países, tem uma particularidade: em Moçambique, Angola e Portugal chama-se Jerusalém; no Brasil tem como título Antes de Nascer o Mundo. O romance conta a história de um lugar, Jerusalém, onde vive o que restou da humanidade e de Silvestre Vitalício, dos seus dois filhos, um tio dos rapazes e um empregado.

À “Folha de São Paulo”, o escritor explica: "No interior de Moçambique deparei com famílias que viviam numa quase completa condição de marginalidade. Estavam aparentemente longe de tudo. Trabalhei com essas comunidades e reparei sempre que, depois de um primeiro olhar, a ligação umbilical com o mundo de hoje estava presente". É dessa ligação que Vitalício, o líder do pequeno lugar, tenta sair. Mais concretamente das recordações que o mundo real lhe traz - a morte de Dordalma, mãe dos seus filhos. A tentativa de apagar o passado é também uma fuga da guerra que fez um milhão de mortos no país.

"Os moçambicanos escolheram o esquecimento. Quem hoje viaja pelo país não sente sinal nenhum dessa guerra. Esse esquecimento é uma sabedoria, uma percepção de que os demónios do passado ainda não foram enterrados. Mas é um falso esquecimento, como quase sempre sucede com os lapsos de memória", diz Couto à “Folha de São Paulo”.

Depois de ter participado, sexta-feira, num debate no Sesc Avenida Paulista, é a vez de ser homenageado, dia 3 de Julho, no Festival de Teatro da Língua Portuguesa. A partir de 12 Julho, Mia Couto estará em Portugal para o lançamento de Jerusalém.

Mia Couto, 54 anos, lançou 23 livros e ganhou muito prémios, entre os quais o Virgílio Ferreira (1999), União Latina de Literaturas Românticas (2007) e o título de um dos 12 melhores livros africanos do século XX com Terra Sonâmbula.(X)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Mia Couto e os hábitos de leitura e escrita

O celebrado escritor moçambicano Mia Couto profere esta quarta-feira, 18, na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em Maputo, uma palestra sobre os hábitos de leitura e escrita no país.

Estudantes, escritores, acadêmicos e jovens (sobretudo) deverão lotar uma das salas da AEMO, dado o interesse que Mia Couto desperta entre os que se interessam pela literatura e também quando se sabe que o hábito de ler entre os moçambicanos é algo que se perdeu.

Aliás, a intervenção de hoje do Mia não pode ser dissociada do debate público que está a ocorrer em Moçambique em torno da falta do gosto pela leitura e pela escrita, sobretudo entre os jovens, estes mais interessados em bens materiais e outras futilidades do que no belo e no sublime.

Em paralelo à palestra uma feira/venda do livro usado estará disponível o que irá permitir que os interessados possam adquirir, a preços acessíveis, obras literárias que de outro modo não seria possível.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O "jet-set" moçambicano visto por Mia Couto

Já vimos que, em Moçambique, não é preciso ser rico. O essencial é parecer rico. Entre parecer e ser vai menos que um passo, a diferença entre um tropeço e uma trapaça.
No nosso caso, a aparência é que faz a essência. Daí que a empresa comece pela fachada, o empresário de sucesso comece pelo sucesso da sua viatura, a felicidade do casamento se faça pela dimensão da festa. A ocasião, diz-se, é que faz o negócio. E é aqui que entra o cenário dos ricos e candidatos a ricos: a encenação do nosso "jet-set".
O "jet-set" como todos sabem é algo que ninguém sabe o que é. Mas reúne a gente de luxo, a gente vazia que enche de vazio as colunas sociais.
O jet-set moçambicano está ainda no início. Aqui seguem umas dicas que, durante este ano, ajudarão qualquer pelintra a candidatar-se a um jet-setista. Haja democracia! As sugestões são gratuitas e estão dispostas na forma de um pequeno manual por desordem alfabética.

Veja na íntegra: O “Jet-set moçambicano

domingo, 16 de novembro de 2008

E se Obama fosse africano?

Texto: Mia Couto
In: Savana, 14/11/2008
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na irrealidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso de vencedor. Nesse momento, eu era também um vencedor. A mesma felicidade me atravessara quando Nelson Mandela foi libertado e o novo estadista sul-africano consolidava um caminho de dignificação de África.

Na noite de cinco de fevereiro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se reerguia, liberta, dentro de nós. Meu coroação tinha votado, mesmo sem permissão: habituado a pedir pouco, eu festejava uma vitória sem dimessões. Ao sair à rua, a minha cidade havia se deslocado para Chicago, negros e brancos respirando e comungando de uma mesma surpresa feliz. Porque a vitória de Obama não foi a de uma raça sobre a outra: sem a participação massiva dos americanos de todas as raças (incluindo a da maioria branca) os Estados Unidos da América não nos entregariam motivo para festejarmos.

Nos dias seguintes, fui colhendo as reacções eufóricas dos mais diversos recantos do nosso continente. Pessoas anónimas, cidadãos comuns querem testemunhar a sua felicidade. Ao mesmo tempo fui tomando nota, com algumas reservas, das mensagens solidárias de dirigentes africanos. Quase todos chamavam Obama de “nosso irmão”. E pensei: estarão todos esses dirigentes sendo sinceros? Será Barack Obama familiar de tanta gente politicamente tão diversa? Tenho dúvidas. Na pressa de ver preconceitos somente nos outros, não somos capazes de ver os nossos próprios racismos e xenofobias. Na pressa de condenar o Ocidente, esquecemo-nos de aceitar as lições que nos chegam desse outro lado do mundo.

Foi então que me chegou às mãos um texto de um escritor camaronês, Patrice Nganang, intitulado: “E se Obama fosse camaronês?”. As questões que o meu colega dos Camarões colocava sugeriram-me perguntas diversas, formuladas agora em redor da seguinte hipótese: e se Obama fosse africano e concorresse à presidência num país africano? São estas perguntas que gostariam de explorar neste texto.

1. Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer George Bush das Áfricas) inventaria mudanças na Constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora perfazendo uma quinzena de presidentes que governam há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2. Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo um candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha. Far-lhe-iam como, por exemplo, no Zimbabwe ou nos Camarões: seria agredido fisicamente, seria preso consecutivamente, ser-lhe-ia retirado o passaporte. Os Bushs de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3. Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível em grande parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. O nacionalista zambiano Keneth Kaunda está sendo questionado, no seu próprio país, como filho de malawianos. Convenientemente “descobriram” que o homem que conduziu a Zâmbia à independência e governou por mais de 25 anos era, afinal, filho de malawianos e durante todo esse tempo tinha governado “ilegalmente”. Preso por alegadas intenções golpistas, o nosso Keneth Kaunda (que dá nome a uma das mais nobres avenidas de Maputo) será interdito de fazer política e assim, o regime vigente, se verá livre de um opositor.

4. Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que a cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um “não autêntico africano”. O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo Presidente africano seria vilependiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou de nenhuma bandeira?).

5. Se fosse africano, o nosso “irmão” teria que dar muitas explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada “pureza africana”. Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder – a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6. Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado, num processo negocial degradante que mostra que, em certos países africanos, o perdedor pode negociar aquilo que parece sagrado – a vontado do povo expressa nos votos. Nesta altura, estaria Barack Obama sentado numa mesa com um qualquer Bush em infinitas rondas negociais com mediadores africanos que nos ensinam que nos devemos contentar com as migalhas dos processos eleitorais que não correm a favor dos ditadores.

Inconclusivas conclusões

Fique claro: existem excepções neste quadro generalista. Sabemos todos de que excepções estamos falando e nós mesmos, moçambicanos, fomos capazes de construir uma dessas condições à parte.

Fique igualmente claro: todos estes entraves a um Obama africano não seriam impostos pelo povo, mas pelos donos do poder, por elites que fazem da governação fonte de enriquecimento sem escrúpulos.

A verdade é que Obama não é africano. A verdade é que os africanos – as pessoas simples, os trabalhadores anónimos – festejaram com toda a alma a vitória americana de Obama. Mas não creio que os ditadores e corruptos de África tenham o direito de se fazerem convidados para esta festa.

Porque a alegria que milhões de africanos experimentaram no dia 5 de novembro nascia de eles investirem em Obama exactamente o oposto daquilo que conheciam da sua experiência com os seus próprios dirigentes. Por muito que nos custe admitir, apenas uma minoria de estados africanos conhecem ou conheceram dirigentes preocupados com o bem público.

No mesmo dia em que Obama confirmava a condição de vencedor, os noticiários internacionais abarrotavam de notícias terríveis sobre África. No mesmo dia da vitória norte-americana, África continuava sendo derrotada por guerras, má gestão, ambição desmesurada de políticos ganciosos. Depois de terem morto a democracia, esses políticos estão matando a própria política. Resta a guerra, em alguns casos. Outros, a desistência e o cinismo.

Só há um modo de celebrar Obama nos países africanos: é lutar para que mais bandeiras de esperança possam nascer aqui, no nosso continente. É lutar para que Obamas africanos possam também vencer. E nós, africanos de todas as etnias e raças, vencermos com esses Obamas e celebrarmos em nossa casa aquilo que agora festejamos em casa alheia.

sábado, 15 de novembro de 2008

Africa, com amor e raiva


A figura de uma mulher negra, deimpenetráveis olhos azuis, dominou a quarta edição da Festa Literária de Porto de Galinhas (Fliporto), dedicada este ano à cultura africana e encerrada no último domingo no balneário pernambucano. Discreta, tentava circular sem ser notada, mas os jornalistas não lhe davam trégua. Afinal, trata-se da primeira mulher a publicar um romance em Moçambique, Paulina Chiziane, nascida há 53 anos em Manjacaze, na província de Gaza, criada no subúrbio de Maputo e com um livro publicado aqui (Brasil), em 2004, pela Companhia das Letras, Niketche – Uma História de Poligamia.

Ao lado do escritor Mia Couto, também entrevistado nesta edição do Cultura, Paulina representa o que há de melhor na literatura africana hoje. Ambos, de fato, se complementam e têm opiniões convergentes sobre a estagnação da cultura moçambicana por força de uma crise de identidade que levou africanos a virar agentes da sua colonização. Há, segundo Mia Couto, um certo racismo, ou uma certa hierarquia eurocêntrica que faz os escritores africanos serem colocados à sombra, impedindo que o resto do mundo saiba o que se passa no continente, assumido por seus intelectuais com um sentimento confuso de amor e raiva.

Tanto em Paulina Chiziane como em Mia Couto nota-se certo desânimo pelos rumos que tomou a história de Moçambique desde a declaração de sua independência, em 1975. O escritor considera que o país perdeu sua capacidade de resistência e que nem a língua nem a cultura portuguesa ajudaram a criar uma identidade para os moçambicanos, que se voltam cada vez mais , negros e brancos, para as tradições e os mitos arcaicos. A África não se questiona mais, "perdeu o sentido crítico de se avaliar", diz Mia Couto, seguindo em coro por Paulina Chiziane, assustada com a retromania que empurra Moçambique de volta ao passado.

(*) Notícia publicada no www.estadao.com.br

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Trecho de "Venenos de Deus, Remédios do Diabo, de Mia Couto

Capítulo um
O médico Sidónio Rosa encolhe-se para vencer a porta, com respeitos de quem estivesse penetrando num ventre. Está visitando a família de Bartolomeu Sozinho, o mecânico reformado de Vila Cacimba. À porta, a esposa, Dona Munda, não desperdiça palavra, nem despende sorriso. É o visitante quem arredonda o momento, inquirindo:
— Então, o nosso Bartolomeu está bom?
— Está bom para seguir deitado, de vela e missal…
A voz rouca parece distante, contrariada como se lhe custasse o assunto. O médico acredita não ter entendido. Ele é português, recém-chegado a África. Refaz a questão:
— Perguntava eu, Dona Munda, sobre o seu marido…
— Está muito mal. O sal já está todo espalhado no sangue.
— Não é sal, são diabetes.
— Ele recusa. Diz que se ele é diabético, eu sou diabólica.
— Continuam brigando?
— Felizmente, sim. Já não temos outra coisa para fazer. Sabe o que penso, Doutor? A zanga é a nossa jura de amor.
A dona da casa pára no meio do corredor, ajeita um cacho de cabelos sob o lenço como se aquele tufo capilar fosse o último vestígio da sua sensualidade.
— Diga-me, Doutor, não será que Bartolomeu foi atacado por essa doença que agora corre pela Vila?
— Não, esta é outra doença.
— Ainda há pouco passou pela rua um desses homens enlouquecidos, agitando os braços, parecia querer voar.
— O posto de saúde está cheio deles, quase todos soldados.
— Sabe como o povo os chama? São chamados de tresandarilhos.
— Sim, já sabia. É um belo nome: tresandarilhos…
— Acha que é uma maldição?
— Isso não existe, Dona Munda. As doenças possuem causas objectivas.
Munda bate à porta do quarto, a fortaleza onde o velho se encerrou e escurece desde há meses. A esposa aguarda pela rabugenta resposta de Bartolo meu. Em vão. Dona Munda não poupa os nós dos dedos e, de novo, golpeia a porta. Cauteloso, o Doutor Sidónio pede-lhe contenção.
— Se calhar ele está a dormir. Venho mais tarde…
— Esse fulano vai acordar.
Às vezes chama-lhe fulano, outras, reduz o nome do marido para Barto. Agora, rosto espalmado na madeira, a mão de Munda sacode o trinco. Por fim, o homem se faz escutar:
— Porquê?
Desde que ali chegou, Sidónio Rosa vem estranhando muita coisa. Por exemplo, agora: a pergunta devia ser "quem é?". Mas Dona Munda já vai anunciando: ela vinha com o Doutor. O homem resmunga: o médico que entrasse sozinho, que a esposa só lhe atrapalhava a pulsação, raios a partissem, com todo o respeito.
Dão tempo. Dona Munda vai traduzindo para o médico português os pastosos sons que vão escoando através da porta. Escuta-se o velho Bartolomeu a erguer-se do cadeirão, lento como lava fria, escutam-se os seus gemidos enquanto se dobra para calçar peúgas. Agora, diz Munda, agora ainda será preciso esperar que ele repuxe as meias até cobrir os joelhos.
— O seu marido tem tanto cuidado com as peúgas…
— Não é cuidado. É vergonha.
— Vergonha?
— Diz que tem os pés cheios de escamas. As unhas já lhe crescem fora dos dedos…
— Ora, Dona Munda…
— É ele que diz, não sou eu. O velho diz que o avô dele morreu lagarto, é isso que ele diz…
Era o que dizia o seu Bartolomeu: que era maleita de família, também ele estava a caminho de se lagartear. A única coisa, porém, que vai rastejando, rente às poeiras, é a sua pobre alma. A esposa resmunga e, depois, suspira:
— Esse teimoso nunca devia era ter saído do hospital, estava tão bem, lá na cidade.
Não saiu, fugiu. Tinham-lhe ligado a veia a um soro, dada a sua debilidade. Os alimentos desciam-lhe contra a corrente sanguínea. Para Bartolomeu era o inverso: ele é que estava alimentando o hospital, com os fluidos que lhe extraíam. Esse sangue roubado circulava agora pelo edíficio, escorria pelos fundos e se espelhava no vermelhão dos poentes. "O hospital é um lugar doente", reclamava o velho. Ao escapar-se daquele antro ele regressava para os seus antigos recantos. "Eu e a casa sofremos de uma mesma doença: saudades", disse.
— Foi a melhor coisa que me aconteceu a mim — lamenta a esposa. — A melhor coisa foi esse tempo que o teimoso passou no hospital…
Dona Munda não termina o suspiro: a porta, por fim, se abre no exacto momento em que o português lhe pergunta:
— E fizeram-lhe exames?
A resposta é interrompida pela aparição de Bartolo meu. O ex-mecânico é uma sombra esvoaçando no escuro. As mãos dele confirmam a fivela do cinto com receio de que as calças arreiem.
— Ah, Doutor, é mesmo o senhor… É que essa aí, às vezes, me engana, ela se disfarça só para eu lhe abrir a porta.
O gesto firme é uma ordem para que a esposa fique fora. Com passo hesitante, Sidónio vai entrando como se os cheiros bafientos ocupassem todo o obscuro quarto. Bartolomeu vai à frente arrastando os pés. Atrás segue a esposa, debicando distâncias. Os passos dele são pequenos: de um chão de prisão. Os passos dela são redondos: de quem anda em ilha.
— Então, meu amigo, está melhor?
— Eu só melhoro quando deixo de ser eu.
— Gosto de o ver assim, sempre filósofo.
— Desculpe, Doutor Sidonho —afirma o velho. — Eu gosto de o ver, mas não gosto que me visite.