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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Escritor Guimarães Rosa completaria hoje 100 anos

SÃO PAULO - No conto ''O Espelho'', do livro ''Primeiras Estórias'', o narrador em primeira pessoa dialoga com o leitor e o convida a ter contacto com uma aventura cheia de mistério. No fim do primeiro parágrafo, afirma: "Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo." Milagre, palavra latina, significa prodígio, coisa maravilhosa e extraordinária. Não dá para pensar a obra de João Guimarães Rosa, cujo centenário de nascimento é comemorado hoje, ignorando o facto de que a sua produção literária é desencadeada pela face fantástica (ou mitológica) da realidade, sempre a partir do sertão de Minas Gerais.


Mas o sertão está em toda parte. Esse mundo está dentro e fora do homem, ensinou o escritor nascido em Cordisburgo, no norte de Minas. Essa concepção é fundamental na sua obra, resultado da assimilação e transfiguração de duas vertentes da literatura brasileira da primeira metade do século passado: regionalismo e espiritualismo. A paisagem do sertão tornou-se tão importante como elemento narrativo quanto a investigação subjectiva dos personagens. Rosa mostrou que o jagunço, mesmo sem saber ler, também se dedicava a especulações metafísicas, no meio da violência produzida pela ordem política e social injusta.


Essa assimilação resultou em algo inédito na literatura nacional, segundo Walnice Nogueira Galvão, uma das maiores especialistas brasileiras na obra rosiana. Ele sintetizou - e superou - duas vertentes contrárias. Ao valorizar o apuro formal, o experimentalismo linguístico, o contacto com a literatura universal e a criação de uma prosa como quem escreve poesia, Rosa fez a expressão pela literatura, no País, avançar ao mais alto grau. "A sua maior contribuição é, sem dúvida, a renovação e o enriquecimento da língua literária", afirma Walnice. "Nenhum outro autor brasileiro alcançou esse resultado, nem em poesia, nem em prosa, nem em dramaturgia, nem em nada."


Embora inevitavelmente associado a uma região brasileira, o autor de ''Grande Sertão: Veredas'' se fez universal, característica nascida na erudição tanto literária quanto poliglota, segundo Walnice, que está lançando Mínima Mímica, conjunto de ensaios sobre a obra rosiana. O que surpreende na ficção de Rosa é a capacidade de reproduzir misteriosos processos de criação da língua, como se o escritor estivesse simultaneamente visitando o começo e o futuro da mais alta literatura. (X)

Princípios democráticos de Salvador Allende são destaque no seu centenário

Santiago do Chile, 26 jun - Os partidos chilenos destacaram hoje "os princípios e valores democráticos" do falecido presidente Salvador Allende ao comemorarem o centenário do seu nascimento, com atos políticos e culturais em Santiago e outras cidades do Chile.
Princípios e valores que "agora estão gravados na democracia chilena", segundo afirmou o presidente do Partido Socialista (PS) do Chile, senador Camilo Escalona, durante um grande acto na Praça da Constituição, em frente ao Palácio de La Moneda.
Neste local, um monumento em memória de Allende (1908-1973) é erguido. Allende foi um dos mais importantes políticos chilenos do século XX, e morreu em 11 de setembro de 1973 durante o sangrento golpe militar liderado por Augusto Pinochet para derrubar o Governo.
Um Governo que, como diversos oradores no Parlamento destacaram, procurou democratizar uma sociedade marcada até então pelas desigualdades, com o objectivo de construir, pela via pacífica, "um socialismo à la chilena, com sabor de empanadas e vinho tinto".
"Estamos aqui porque não queremos que nenhum presidente eleito democraticamente tenha que se submeter", disse Escalona.(X)