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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Livro investiga porque “as comunidades muçulmanas não passaram para para o lado da Frelimo” durante a guerra colonial

(Mesquita dos “Monhés” na ex-Lourenço Marques, no ano de 1929/Foto de álbuns de Santos Rufino)

Os esforços que a administração portuguesa desenvolveu em Moçambique entre 1966 e 1973 para alinhar as comunidades muçulmanas com o lado português evitou que a guerra "tivesse corrido pior", afirma o principal responsável dessa estratégia.

Fernando Amaro Monteiro foi o principal responsável pela concepção e condução do programa destinado à política islâmica que o poder colonial português levou a cabo em Moçambique para atrair e alinhar as comunidades muçulmanas, e cuja história agora é retratada no livro "Moçambique: Memória Falada do Islão e da Guerra", que hoje é apresentado em Lisboa.

O trabalho é composto por uma série de entrevistas que AbdoolKarim Vakil, professor no King's College de Londres, fez a Fernando Amaro Monteiro em 2004, e, que, entre outros, descrevem detalhadamente os múltiplos esforços que o poder constituído desenvolveu durante a guerra colonial em Moçambique para evitar que as comunidades muçulmanas passassem para o lado da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO).

A política adoptada para com o Islão em Moçambique, precisa Amaro Monteiro, foi iniciada em 1965-66, tendo ganhado principal relevo a partir de 1968 com a chegada ao território de Baltazar Rebelo de Sousa como governador-geral, o qual abraçara todas as principais linhas de orientação do chamado "Plano de Acção Psicológico".

De acordo com Amaro Monteiro, a acção de Rebelo de Sousa - que tinha um "talento de relações públicas e uma capacidade de comunicação espantosos" - foi preponderante para o estabelecimento desse diálogo.

"Num contexto de guerra, este plano - através do qual se procurou o estabelecimento de um diálogo, de um entendimento e de uma interlocução com os muçulmanos no país (na altura cerca de 1.2 milhões de pessoas) - foi fundamental", visto que várias áreas estratégicas do território eram ocupados por estas comunidades, explica Amaro Monteiro.

Se esse plano de aproximação - que teve "grande sucesso mas que devia ter sido implementado mais cedo" - não tivesse existido, garante, essas zonas estratégicos teriam caído nas mãos da FRELIMO e ali "as coisas no terreno teriam corrido pior".

"Não vamos dizer que se isto tivesse sido feito antes tínhamos ganhado a guerra porque termos perdido a guerra globalmente como país foi uma coisa que aconteceu por força de uma situação histórica especial e de uma conjuntura internacional muito própria", realça Monteiro, que no período retratado no livro era adjunto dos Serviços de Centralização e Coordenação de Informações de Moçambique e consultor dos Governadores-gerais daquele território (1970- 1974).

"Não era o conhecimento desta massa [da comunidade muçulmana] antecipado e devidamente accionada que faria com que tivéssemos ganhado a guerra", reitera, salientando, contudo, que se essa massa tivesse sido accionada antes o "rendimento que ela deu a favor da administração portuguesa podia ter sido muito maior e teria começado muito antes".

O livro, da autoria de Abdoolkarim Vakil, Fernando Amaro Monteiro e Mário Artur Machaqueiro e editado pela Almedina, fornece informações sobre diversos protagonistas centrais do período histórico referido e retrata também a postura da hierarquia católica perante a religião islâmica em Moçambique as comunidades muçulmanas.

(Lusa)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Livro: “Cadernos das Memórias Coloniais”, ou testemunhos do racismo em Moçambique (*)

por FERNANDA CÂNCIO (Diário de Notícias/Portugal)

Nascida em Moçambique, deixou a sua terra aos 12 anos, em 1975, para a segurança e o desprezo da metrópole. O seu recém-publicado “Caderno das Memórias Coloniais” é a história de uma retornada que assume o racismo português.

Todos os lados possuem uma verdade indesmentível. Nada a fazer. Presos na sua certeza absoluta, nenhum admitirá a mentira que edificou para caminhar sem culpa ou caminhar, apenas. Para conseguir dormir, acordar, comer, trabalhar. Para continuar. Há inocentes-inocentes e inocentes-culpados. Há tantas vítimas entre os inocentes-inocentes como entre os inocentes-culpados. Há vítimas-vítimas e vítimas-culpados. Entre as vítimas há carrascos.

Passa muito tempo até termos a voz, até termos saldado, a bem ou a mal, a dívida que pensámos dever; até cuspirmos no dever e na honra e na fidelidade, essas cordas tão sujas, tão forçadas. Até não nos importarmos de ser apenas umas cabras, párias do sangue e da raça. Até perder a fé e a cortesia. Tudo.

Isabela tem 46 anos, um blogue criado em 2005 (Mundo Perfeito) e um livro, publicado agora na Angelus Novus, a editora do crítico literário e poeta Osvaldo Silvestre, que dá pelo nome de Caderno de Memórias Coloniais e compila textos do blogue e textos sem ser do blogue, textos mais curtos ou mais compridos mas todos densos, sanguíneos, doces e brutais, como algo que vem das entranhas. "Comecei a escrever e a gostar do que estava a escrever. Achei que estava a sair bem, Com ternura mas também com violência. Claro que tenho medo de ser mal interpretada. Mas sinto muito alívio. Libertei-me de um fardo que carreguei comigo a vida toda."

O livro desfaz o postal da África colonial mitificada, doce, dos fins de tarde rosa, dos vestidos brancos, dos criados negros calados, "naturalmente submissos" e agradecidos, a quem "se tratava muito bem". Não:"É terrível falar disto mas a verdade é que nós vivíamos num país onde se podia atropelar um negro e não ir para a prisão. Não tinham direitos. E por muito terrível que tenha sido o que aconteceu no fim aos portugueses,e foi, era inevitável que saísse aquela raiva por algum lado."

Sim, Isabela é capaz de ver e dizer isto, esta coisa arrepiante: houve uma espécie de justiça nos massacres dos brancos. Mesmo se ela sabe que quando em Setembro de 1974 mataram famílias conhecidas à catanada, espalhando-lhes os restos pelas machambas, animais e pessoas, tudo o que era branco, à mistura, só por sorte inaudita ela e os pais não fizeram parte das contas. "Quando começaram os tiros escondemo-nos no corredor da casa, deitados no chão.

Sabiamos que se entrassem não escapávamos. Não sei por que não nos atacaram - ainda hoje me pergunto se foram os nossos vizinhos negros que nos protegeram". Os vizinhos negros com quem ela estava proibida de se dar, como o menino da casa ao lado com quem queria brincar, ele em cima da árvore, ela sobre a garagem, a conversar até a mãe os apanhar em flagrante. "As minhas memórias de infância estão cheias desses interditos. Nós não podiamos dar-nos com os pretos e tudo o que eu queria era dar-me com eles. Queria usar capolanas, andar descalça, aprender a língua... E tudo isso me era era proibido."

Até há 15 anos, nunca tinha falado disto com ninguém. E até ter começado a escrever no blogue, nunca tinha falado como tinha de falar de África, de Moçambique, das suas memórias de infância e do seu pai, o homem enorme que a pegava ao colo e a levava para todo o lado, para as obras onde era electricista e onde dirigia "os seus muitos pretos" e os agredia com palavras e porrada, para as tardes de camarão grelhado e penalties com os outros homens em que aprendeu a linguagem do racismo, para as aldeias onde espancava um empregado faltoso, "um preto de merda", "um preto cabrão", para os longos passeios pelo mato onde se perdia por picadas que não davam para lado nenhum, o homem que lhe disse sempre: "Tens de ser independente, dona da tua vida".

O pai contraditório, monstruoso e deslumbrante e inultrapassável que morreu em 2001, já em Portugal, depois de ter ficado em Moçambique mais dez anos com a mãe, depois de ter estado preso um ano e perder metade do peso por "dizer mal de Samora Machel" ("Se não tivesse vindo para cá acabariam por matá-lo"), o pai para quem toda a gente que não via "os pretos" como ele era "comunista", o homem que mandou em lágrimas a filha única e adorada aos 12 anos, em 1975, para "a metrópole" onde ela andou uma década de casa em casa, uma refugiada de avó em tia, sempre com a roupa numa mala debaixo da cama, sem gavetas nem armários e um cão, o Farrusco que segura ao colo na foto da capa do livro, como única companhia até ser envenenado por uma das familiares (e os olhos ainda se carregam agora, como se nessa atrocidade estivesse tudo - passar a porta de vidro do aeroporto para o avião e para o "slide cinzento" que Portugal lhe foi, nunca mais voltar, viver em "casas metidas para dentro", deitar fora a roupa colorida para não a apontarem na rua "olha a retornada exploradora dos pretos", o silêncio ante os insultos: "Dizer que não era mentir, dizer que sim era trair o meu pai").

Trair o pai. Isabela, o nome que Isabel Figueiredo Almeida Santos, agora professora, antes jornalista, adoptou no seu blogue, nunca quis fazê-lo. "Tinha de me posicionar de forma muita ambígua - tinha de gostar dos meus pais e ao mesmo tempo lidar bem com a minha consciência. Escrevi este livro porque senti que esta história ninguém a contava. E que contar a história do meu pai era contar a história dos portugueses. Porque ele não era diferente." Porquê só depois da morte dele? "Muitas pessoas pensam que isto é um pontapé no pai morto, mas não é. Ele sabe que não estou a mentir".

Saldar, a bem ou a mal, a dívida que pensava dever, não se importar de ser uma cabra, pária de sangue e de raça, escreve. A pária que retrata no pai Portugal e a história do colonialismo e que mantém a mãe protegida do que escreveu e sentiu - mesmo se, reconhece, "apesar de falar muito menos com ela que com o meu pai, às vezes ela surpreende-me nas coisas que sabe de mim". A "traidora" que caminha na fronteira entre todas as lealdades: "É imperdoável que o governo da altura, sabendo o que se tinha passado noutras descolonizações, tenha deixado ali as pessoas. A descolonização foi muito mal feita - e podia não ter sido. As pessoas foram entregues."

(*) Título da minha responsabilidade

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

José Saramago fala de seu novo livro, "A Viagem do Elefante"

Uma certa fragilidade ainda é aparente, resquício de uma grave enfermidade respiratória que quase o matou. Mas, aos 86 anos, o escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura, enfrenta com rara lucidez e energia renovada o seu novo tour pelo Brasil, promovendo agora o lançamento mundial de A Viagem do Elefante, livro em que narra a aventura verídica de um elefante que rumou, em 1531, de Lisboa a Viena, presente de um rei português.
"Tive algo semelhante a três pneumonias, perdendo 20 quilos em pouco tempo", disse o autor de sucessos como Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, em entrevista ao Estado, na segunda-feira, depois de homenageado por funcionários da editora.


Leia a entrevista: wwwnantchite.blogspot.com

terça-feira, 19 de agosto de 2008

José Saramago lança o seu novo livro "A Viagem do Elefante"

O escritor português José Saramago acaba de terminar o seu novo livro, A Viagem do Elefante, que conta a história real de uma viagem épica de um elefante asiático que, no Século 16, viajou de Lisboa para Viena.
"Por muito incongruente que possa parecer..." são as primeiras palavras de A Viagem do Elefante, uma idéia que Saramago carrega há mais de dez anos, quando viajou à Áustria e por acaso entrou num restaurante de Salzburgo chamado The Elephant (O Elefante). O Prêmio Nobel de Literatura respondeu às perguntas da Agência Efe em sua casa em Lanzarote (Ilhas Canárias), onde terminou o seu livro e já recuperado de uma doença respiratória que ameaçou a sua vida.
Mais de uma vez pensou que não chegaria a concluir a obra, que tem aproximadamente 240 páginas e que chegará no segundo semestre aos leitores das línguas portuguesa e espanhola.